Aqui ficam algumas recordações de uma vivência total, quase sempre em conjunto desde praticamente a nascença até à hora final. Temos diferença de um mês, acho que a minha mãe lhe deu mama. Depois veio a escola primária, aos 7 anos, onde brincámos sempre juntos desde a 1.ª à 4.ª classes. Da 1.ª à 3.ª classes foi com o professor Mateus: ele era privilegiado por amizade do pai com o professor, mas eu também não tenho queixa do professor, embora reconheça que era mau.
Depois da escola, íamos jogar à bola no campo de futebol que existiu junto ao lagar de azeite das Cortes. O jogo só acabava quando o árbitro (as nossas mães) nos vinha chamar com as vides debaixo do avental. A 4.ª classe já foi com a professora D. Arménia, da Capelinha do Monte. Era nova e a primeira vez que dava aulas. Ao princípio abusávamos um pouco da bondade dela, mas depois impôs-se e levou-nos todos a exame a Leiria (Escola S. Estêvão) e ficámos todos bem. No período do pré-exame, para nos acostumar, íamos para Leiria fazer umas provas escritas e orais para casa da professora, à Fonte Grande, depois era brincar para o parque. Para entrarmos ali, tínhamos que pagar três tostões. Houve um dia em que eu só tinha

um tostão, e o Anacleto emprestou-me os dois tostões em falta. Que ainda lhe devo!
Aos dez anos era quando saíamos da “universidade”, para logo a seguir trabalhar. O Anacleto era empregado do Telefone e, aos 14 anos, o emprego em Leiria. Foi estudar de noite e era um excelente “aluno”... a jogar matraquilhos na Mocidade Portuguesa!
A adolescência passou-se com muitas peripécias, desde ir à fruta de noite, até às descamisadas e bailaricos em que ele era um podão a dançar. Mas chegou a fazer parte do rancho folclórico cá da terra! No emprego, em Leiria, muitas coisas aconteceram: no Inverno comprávamos cigarros Kentuk (12 tostões) e vínhamos na bicicleta a deitar fumo. Uma vez, num sábado, saímos ao meio-dia e lá vínhamos os três: eu, o Anacleto e o Acácio a gastar o material que tinha sobrado, quando apareceu o pai do Acácio que vinha buscar a bicicleta. Ele, ao ver o pai, pôs o cigarro dentro do guiador: era só fumo! Foi o que se imagina.
Depois, veio a tropa. Para a Figueira da Foz e para o Porto. O transporte era um problema aos fins-de-semana, para vir a casa, uma vez que saíamos às duas da tarde de sexta-feira do Porto e chegávamos a casa no sábado à noite, à hora de voltar. Mas um grande amigo nosso, o sr. César Augusto Cunha, carregava o camião de vinho de propósito ao Domingo para nos levar de madrugada para o Porto. Chegou até emprestar-nos uma Citroên 2CV e nós, sem carta, levávamos abafado do pai e laranjas roubadas ao pé da moagem ao Sr. Manuel Carvalho.
As passagens no alambique são mais que muitas, com sessões de fados do Professor Casimiro, desde fazer o jantar de propósito para o neto que estava na catequese, aos patos do José Joaquim e aos galos tirados a muito custo ao Luís Batista. Uma história boa foi ele convidar os colegas serralheiros da Blocotelha para uma refeição: tinha preparado uma ovelha e, ao ver que o animal era magro, teve de ir comprar mais uns quilos. Depois de todos comerem (ele era sempre o cozinheiro), começaram a falar de várias passagens do trabalho e eu estava a ver que ele ainda levava deles… Mas tudo na brincadeira, claro.
Estas passagens são uma síntese mas, como devem calcular, em 65 anos passa-se muita coisa, e eu sei que perdi um grande amigo.

José António Lopes (Cortes)


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