Meu caro Anacleto:
Decerto estranharás que, morando eu aqui tão perto de ti, aproveite as linhas do “Jornal das Cortes” para te dizer umas coisas, assim a modos que mais a sério.
Mas não tens que estranhar. Nunca, de todas as vezes que estivemos juntos, conversámos seriamente, pois que contigo, face a face, apenas nos dissemos as maiores barbaridades e as coisas mais acertadas, sempre no tal tom intemporal que é o tom de brincadeira. E tudo o que combinámos a brincar, realizámos seriamente, tudo o que dissemos nunca fazer, fizemos realmente. Era assim, pronto.
De resto, tu eras assim para toda a gente. E como eu te reconhecia nesse tom, (que era o meu), que era já o do teu pai, que já vai sendo o dos teus filhos.

E como eu os reconheço, no tal tom despreocupado que esconde enorme “pré-ocupação”. Como eu vejo neles o carimbo que cá deixou o Anacleto Palaio velho (com a colaboração prestimosas da Senhora Maria, tua mãe).
De resto, foi a brincar que tiveste o acidente, e acredito tenha sido a brincar que te despediste deste mundo, desprezando o enorme sofrimento físico que estarias a passar, e sem dar mostras da enorme “pré-ocupação” que terias no pensamento, sabendo a quantidade colossal de quefazeres que irias ainda executar, tu, o mentor discreto e omnipresente de uma família que tem passado por atrozes agruras, e sem que no teu rosto se apresentasse qualquer sinal do teu mundo interior em convulsão.
Na Família eras o suporte, o arrimo, a baliza, o farol…
Na sociedade e no trabalho tu eras o disciplinador sem chicote, o companheiro sem azedume, o ouvinte sem chocalho, o trabalhador sem alarde, competente sem orgulho, eras tu o realizador ideal para tarefas que a tua terra te deveria ter entregue.
Não entregou!
E apenas porque te foste, para mais longe da minha casa, um bocadinho, para mais perto do meu pensamento, pois que no dia-a-dia nem de ti me lembrava, sabendo e descansando, que tu estarias ali ao pé para me socorrer acaso eu precisasse.
Enquanto alinhavo estas, passa-me pelo pensamento um filme, e visualizo cenas do maior humor, como aquela do António Papão, teu companheiro dos tempos de Moçambique, lembras-te? No patim em frente à tua casa (e enquanto eu descansava do assentamento do chão que fazíamos em conjunto), vem ele chamar-te de lado para te dizer que não trabalhasse para mim, que eu era isto e aquilo… E tu, sem te desmanchar, foste-lhe dizendo que não fazia mal, desde que eu pagasse…
Pois, estas e outras, algumas de muita tensão (que ainda é cedo para mostrar em público), te quero agora lembrar, nesta carta aberta. Carta aberta que, mesmo assim publicada, não é tão aberta como a ferida que deixaste aberta no meu coração.
Um abraço, pá!

Casimiro


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