(História contada pela irmã mais velha do Anacleto)

Tinha o Leto oito ou nove anos, já ia ajudar o pai a trabalhar num alambique que, nessa altura, podia ser ou do senhor Joaquim Marques da Cruz ou do senhor Engenheiro Charters ou do Dr. Afonso Lopes Vieira ou, então, naquele que viria a ser o seu e o da D. Miquinhas.

O nosso pai era um especialista a fazer aguardente e era convidado todos os anos a explorar um desses alambiques que se encontravam todos na mesma rua.

Então, toda a família trabalhava, uns de noite, outros de dia. O Leto fazia sempre equipa com o pai e foi com ele que aprendeu o sentido de humor e de grande convivialidade com que viveu e serviu toda a sua vida.

O nosso pai era o rei das patuscadas. E então, à noite, sobretudo de sexta-feira, lá iam os Anacletos armar as “narças” [nassas] para as enguias ou fazer batidas no rio com o “estremalho” para apanhar uns barbos ou umas bogas para fritar.

No sábado, de manhã, lá estavam as três manas a descamar e a preparar o peixe para a patuscada da tarde. Os amigos convidados, a broa cozida, o vinho ou água-pé, o peixe frito com molho de escabeche – era uma alegria ver como o nosso pai gostava de receber os amigos, contando anedotas e, outras vezes, mesmo, fazendo-lhes umas partidinhas.

Por exemplo. Um dia, um amigo passou ao alambique com dois coelhos à cintura, todo contente, matou o bicho e foi para casa levá-los à mulher para ela os amanhar. Depois, voltou a passar ao alambique, porque ia regar para a Ribeira. Então o pai teve uma ideia. E disse ao Leto: «Vai a casa do Zé Santo (Fardório) e diz à mulher que ele te mandou lá ir buscar os coelhos que ele caçou hoje.» O Leto foi, a mulher não ficou contente, mas deu-lhos. A minha mãe teve ordem para os cozinhar e o pai convidou os amigos e esperou que o Zé Santo voltasse da rega, não o deixando ir para casa, antes convidando-o para a patuscada.

A minha mãe cozinhava muito bem e o ti Zé Santo até quis a receita para dar à mulher, a fim de cozinhar os coelhos dele. Todos riram, mas o ti Zé Santo não percebeu nada. Só quando chegou a casa é que compreendeu que tinha comido os coelhos que ele próprio tinha caçado!

Foi assim que o Leto viveu a sua infância com o nosso pai, na alegria de dar e de receber, na simplicidade da verdadeira amizade.
Mais tarde, o pai comprou o actual alambique à D. Miquinhas e explorou-o até poder – era a vida dele, a alegria de reunir os amigos sempre à volta dele com as suas graças e chalaças.
Quando decidiu fazer as partilhas, que foram tiradas à sorte num jantar de família, o alambique não calhou ao Leto. Mas nós apercebemo-nos da pena dele e a minha irmã trocou com ele.
Não era a aguardente nem o trabalho que lhe interessavam naquela casa, mas sim a ideia de perpetuar esse canto de frescura numa eterna recordação do nosso pai. Conseguiu-o perfeitamente: adaptou-o aos tempos modernos, fazendo do Alambique um lugar de amizade, de confidência e de cultura.

Pôs esta casa em situação de ter uma continuidade com os filhos e, quem sabe, com os netos, sempre no mesmo espírito de fraternidade. O Alambique é também o meu orgulho. Obrigada, meu irmão querido.

Maria do Carmo Cordeiro da Silva 


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