Neste ano de centenário, é pena que Leiria não se tenha associado condignamente às celebrações do nascimento de Miguel Torga, pseudónimo literário do médico Adolfo Rocha. O período em que aqui viveu e manteve consultório, não obstante curto - de 1939 a 1941 - foi dos mais intensos e determinantes da sua vida. 

Foi durante esses cerca de dois anos que o escritor publicou algumas das suas obras mais significativas: o «quarto dia» de «A Criação do Mundo», (prosa), 1939; «Bichos» (prosa), 1940; [Contos da] «Montanha» (prosa), 1941; «Um Reino Maravilhoso, Trás-os-Montes», (conferência), 1941; «Terra Firme, Mar» (teatro), 1941; «Diário I» (poesia e prosa), 1941. Aqui concebeu total ou parcialmente outras, lançadas mais tarde, mas não menos importantes: «Rua» (prosa), 1942; «Diário II» (poesia e prosa), publicado em 1943; «Portugal» (prosa), publicado em 1950; e o quinto e sexto dias de «A Criação do Mundo», lançados respectivamente em 1974 e 1981, onde relata, de uma forma romanceada, a sua experiência nesta cidade.

Foi igualmente durante esse período que o médico decidiu abandonar a vida de celibatário empedernido – tinha já 32 anos – e casou com aquela que o acompanhou durante o resto da vida.

E foi também nesse tempo que a polícia política salazarista deu por ele e o arrastou num processo verdadeiramente kafkiano, deixando-o durante cerca de dois meses a definhar na prisão do Aljube, exactamente pela publicação do «quarto dia» de «A Criação do Mundo», onde denuncia os horrores da Espanha franquista e da Itália fascista, apercebidos numa viagem que fizera à Europa no ano anterior.

É sobretudo sobre essa história negra que nos iremos debruçar aqui durante as próximas semanas, dado que foi já tornado acessível ao público o processo da PVDE / PIDE / DGS sobre o escritor, depositado na Torre do Tombo.

Iremos usar como fontes, para além da documentação policial, os próprios escritos do autor e as breves referências que a imprensa local da época foi fazendo ao médico; mas também algumas memórias e ecos locais, sem contar com outras referências bibliográficas de diversos investigadores que se debruçaram sobre a vida e obra de Torga.

A passagem por Leiria, apesar de curta, foi muito marcante para Torga. Embora mantendo uma presença discreta, o escritor relacionou-se com alguma intelectualidade local, sobretudo as pessoas de espírito mais aberto e progressista, nomeadamente, a família Tinoco, os professores e artistas plásticos Narciso Costa, Luís Fernandes (que o retrataram) e Jorge Maltieira, para além de cidadãos comuns, que com ele privaram mais de perto. Enquanto médico, teve uma actividade clínica bastante prestigiada. Uma das memórias que ficaram dele (e que comprovámos num dos documentos do processo policial) é de que fazia consultas e operações gratuitas quando os doentes não tinham meios para lhe pagar.

A sua mudança para Coimbra, cidade onde se radicou até ao fim da vida, terá sido motivada mais por razões de ordem afectiva – foi ali que estudou e fez amigos – e prática – era lá que mandava imprimir as suas obras – do que devido ao trauma da prisão ou à hostilidade das gentes da «situação». E, pelo menos durante os primeiros tempos, chegou a lamentar essa sua opção, lembrando nostalgicamente «os bons tempos de Leiria».

Diz no sexto dia da «Criação do Mundo», referindo-se a esta cidade: «Bem vistas as coisas, fora uma tolice rematada ter renunciado ao aconchego do seu regaço. Mas dava conta disso tardiamente, quando o mal estava feito e já não havia volta a dar-lhe. Deixara-me seduzir por uma miragem. Profissionalmente, não precisaria nela de lutar tanto; a abalada distanciara-me de afectos inestimáveis que sabiam enternecer um coração de poeta; quanto ao aspecto literário, pouco ou nada lucrara. Beneficiara, é certo, do convívio de alguns interlocutores mais qualificados e a proximidade dos prelos dispensava-me das antigas correrias durante cada edição. Só que Coimbra, em si, em vez da morada do espírito, era um sepulcro dele.»

E mais à frente recorda com saudade «as excursões de Leiria», onde iniciara, com o advogado Alfredo Baptista e o bancário José Maria Gomes, seus indefectíveis amigos nas horas mais difíceis, o périplo que deu origem à sua particular visão geo-poética do país, impressa na obra «Portugal».

De uma coisa podemos ter a certeza: é de que, se esta vivência foi, para o médico e escritor, significante do ponto de vista literário, clínico e humano, ela marcou toda a sua intervenção posterior, consolidando a determinação férrea com que sempre desnudou criticamente o regime político de então.

Na próxima edição, iremos seguir em pormenor as passadas de Miguel Torga por terras de Leiria.

Carlos A. Silva


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