A memória da passagem de Miguel Torga por Leiria está velada por uma névoa de imprecisões que o tempo acentuou. Passados quase 70 anos, é normal que as diversas versões sobre o período em que aqui viveu e teve consultório, mesmo as mais bem documentadas, divirjam. Mas o que é certo é que essa estada foi suficientemente marcante para que a sua memória permaneça, nomeadamente entre os leirienses mais velhos, e se tenha até mitificado - também pelo facto de ele se ter tornado famoso e admirado como escritor.', '

Iremos, ao longo deste artigo, tentar esclarecer alguns dos factos que rodearam a fixação do médico Adolfo Rocha, que já dividia a sua pessoa com o escritor e poeta Miguel Torga, em terras de Leiria. Iremos, para isso, basear-nos em diversos documentos e testemunhos, tentando ser o mais exactos possível quanto às balizas temporais que limitam essa época.

 

As fontes

O primeiro testemunho é o do próprio autor, quer através do seu «Diário», quer, sobretudo, da obra «A Criação do Mundo», que descreve, de uma forma fantasiada, no seu «Quinto Dia», essa etapa da sua vida. Há, no entanto, algumas dificuldades quanto a ambos os documentos. O primeiro, porque se trata mais de um «diário poético e filosófico» e menos uma descrição do dia a dia do seu autor. O segundo, porque mascara os episódios nele relatados através de artifícios literários que nos deixam em dúvida quanto à sua exactidão factual e quanto à identidade dos protagonistas. São, ambas, obras literárias no verdadeiro sentido do termo e não as «memórias» que necessitaríamos para este trabalho. Mas, ainda assim, são dois pilares fundamentais desta investigação.
Contaremos ainda com outros testemunhos, como o da própria filha, Clara Rocha, especialista em alguns aspectos literários da obra torguiana. A sua excelente «Fotobiografia de Miguel Torga», publicada em 2000, está na base da exposição biográfica que neste momento corre o país e que tivemos a oportunidade de visitar em Coimbra.
Outros autores, alguns deles locais, como Alda Gonçalves, João Cabral ou José Dias Coelho, dão-nos breves referências a esse momento da vida de Torga e ajudam-nos a reconstituir o quadro contextual da Leiria daquela época.
O dossier da PVDE actualmente disponível ao público na Torre do Tombo esclarece-nos, não só, sobre os contornos da sua prisão enquanto aqui viveu, mas também em relação a alguns elementos contextuais, necessários à descodificação do relato que o autor nos faz na «Criação do Mundo».
Por outro lado, a imprensa leiriense da época revelou-se uma excelente fonte de informação em relação à actividade clínica de Adolfo Rocha, e não só, vindo desfazer alguns equívocos no que diz respeito à sua chegada, à abertura do consultório e ao seu encerramento. A esse propósito, é de referir a existência de quatro semanários: dois editados pela igreja (O Mensageiro e A Voz do Domingo), um comercial (Região de Leiria) e um político, situacionista, da iniciativa dos militares (Portugal). Se «A Voz do Domingo» se revela essencialmente um órgão confessional, os outros três vão dando conta de alguns factos mais relevantes do quotidiano leiriense.
Quanto às dificuldades relacionadas com a interpretação do «Quinto Dia» da «Criação do Mundo», é a própria filha do autor que, no ensaio «O Espaço Autobiográfico em Miguel Torga», nos explica o uso, por exemplo, da «metonímia geográfica». Isto é, «consiste a metonímia geográfica em atribuir a uma localidade um nome de outra, a ela ligada por uma relação de contiguidade mais ou menos evidente. Por exemplo, Agarez é uma aldeia transmontana, mas não é a verdadeira terra natal do artista (natural de S. Martinho de Anta, como no- lo revela o Diário)». No período leiriense, esse artifício surge, por exemplo, quando designa a terra onde habita Afonso Lopes Vieira como «o Lapedo», em vez de Cortes.
Este recurso é também usado em relação aos protagonistas da acção, através da «metonímia nominal» e da «metonímia descritiva». «Consiste a primeira na produção da imagem real duma personagem, designada contudo por um nome de outra personagem conhecida do autor, ou por um nome próximo do nome real. Assim acontece com as figuras do Alvarenga, do Tavares, do Navarro, do Dr. Luciano, de Alice, do Tomé, do Dr. Olívio, da D. Gena, do Gonçalo, do André, etc. [Afonso Lopes Vieira, por exemplo, é evocado como Afonso Vilar]. A segunda é um modo de amalgamar numa só porme¬nores físicos e temperamentais de diversas figuras conhe¬cidas ao longo da existência, ou ainda de fundir traços de pessoas reais com reminiscências de personagens literárias», diz Clara Rocha.
Segundo esta autora, «deste modo consegue o artista tornar fictício um local [ou uma personagem] cuja descrição é a imagem do real e cujo nome é igual¬mente passível de verificação, pela simples fusão numa só unidade espacial [ou pessoal] de uma descrição e de um nome contíguos. Este artifício, além de constituir um processo original de verosimilhança, atesta o pudor de desvendar aos outros o mundo descoberto, a relutância em escancarar as portas da intimidade e a necessidade de iludir uma total entrega do eu.»
No entanto, as variadas pistas de que nos fornecem muitos dos documentos acima descritos ajudam-nos a interpretar e/ou clarificar os factos e as personagens, numa tentativa de ler a realidade por detrás da ficção. E tornaram esta investigação num divertido e estimulante jogo detectivesco…

O contexto: Leiria nos anos 30/40

Antes de nos debruçarmos sobre a estada de Torga em Leiria, talvez seja útil esboçar algumas linhas sobre o contexto do lugar e da época e tentar adivinhar as razões que levaram o médico-escritor a optar por esta cidade.
Nas décadas de 30 e 40, como sabemos, a cidade era muito mais pequena do que é hoje, quer em termos urbanísticos, quer populacionais.
Contudo, José Dias Coelho, no estudo «Leiria entre 1920 e 1940, sociabilidade e vida quotidiana» defende que não se pode dizer «que Leiria era uma terra parada no tempo, aonde nada acontecia, que vivia à sombra do castelo».
É nessa altura que se começa a verificar um salto quantitativo em relação a esses dois aspectos. Rasgam-se novas ruas, constroem-se novos edifícios públicos e privados, aumenta a população residente, surgem e desenvolvem-se novos hábitos e novas necessidades.
Diz o semanário «Portugal» de 31 de Dezembro de 1939: «Já se encontra completamente aberta a Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, no seu prolongamento até à rua de Alcobaça, a qual, depois de completamente concluída, deve ficar uma das melhores artérias da cidade, facilitando muitíssimo o trânsito entre a estrada da Marinha Grande e a nacional nº 10 de 1ª e o centro de Leiria.» Por essa data, é tornado público um projecto de construção do novo edifício dos CTT ao fundo dessa avenida.
A população, em 1920, é de menos de cinco mil habitantes, passando para quase sete mil nas duas décadas seguintes, numa taxa de crescimento de cerca de 35% (24,7% na década de 30 e 10,3% na década de 40).
Diz-nos ainda Coelho que «a população era formada por uma classe média ou média alta de comerciantes, industriais e proprietários, constituindo uma burguesia endinheirada, promotora do caciquismo político local, um grupo de funcionários da administração pública e militares e, vestígios de uma pequena nobreza decadente; para além destes, tinham peso significativo os empregados do comércio, os operários e alguns agricultores». No entanto, a distribuição da população activa do concelho pelos diversos sectores de actividade privilegiava o sector agrícola, com 67,6 %. A indústria ocupava apenas 17,5 % da população e o comércio e serviços 11,2 %. Era, como no resto do país fora dos grandes centros, um concelho essencialmente agrícola, pouco industrializado, com uma pequena elite política e administrativa sedeada na cidade.
Do ponto de vista sócio-político, vivia-se no país sob um regime autocrático e controlado policialmente, em que os militares tinham um ascendente inusitado. Os ecos da guerra civil de Espanha e o início da II Guerra Mundial marcavam o debate quotidiano, quer nos cafés, quer nos jornais locais.
Do ponto de vista cultural e desportivo, a cidade não deixava créditos por mãos alheias. A Biblioteca Erudita, que funcionava nas traseiras da Sé, e onde Torga ia com frequência, desenvolvia programas de difusão da leitura e tinha um horário complementar de abertura. Em Outubro de 1939, anunciava-se no Região de Leiria que «a partir do próximo dia 1 de Novembro a Biblioteca abrirá para a sessão nocturna de leitura, das 20 às 22 horas.»
Diz-nos Coelho que «no que respeita a cinema e a teatro, a cidade teve desde muito cedo salas adaptadas a essas manifestações de arte. Foram representadas muitas das peças que pouco tempo antes eram novidade na capital. Os mais famosos artistas e alguns dos grupos profissionais de maior nomeada, a par de outros, menos conhecidos, estiveram em Leiria, foram aplaudidos, ou "pateados" quando o público não gostava. Houve alguma produção de grupos amadores locais e essas peças representadas eram um excelente motivo para uma sociabilidade intensa, no decorrer dos ensaios, na distribuição dos papéis, nas próprias representações. As récitas, com frequência, atraíam bastante público e os jornais dão conta da qualidade e da forma como a assistência reagia. Desde há muito a cidade se habituara a ver cinema. Inicialmente, raras e aleatórias, foram-se tornando mais frequentes as sessões, criaram um público interessado, exigente, que não dispensava o filme semanal, ou mesmo mais frequentemente.»
Havia ainda conferências, exposições e serões culturais, os mais famosos dos quais foram as «Horas de Arte», promovidas, nomeadamente, pela família Tinoco. Em 1940, à imitação da Exposição do Mundo Português, realizou-se a Exposição Distrital de Leiria, que trouxe à cidade muitos visitantes de fora, movimentou grande número de actividades e deu origem «a várias referências na imprensa nacional, tão pouco habituada, na época, a escrever sobre Leiria» (Coelho).
Como lugares de convívio social havia ainda as tradicionais tabernas, as colectividades e os cafés, cuja emergência é, neste período, notável.
Alda Gonçalves atesta, na sua obra sobre o desporto em Leiria, que esta actividade se desenvolveu intensamente na cidade. Para Coelho, esta «foi também uma das molas reais do desenvolvimento do intercâmbio entre os forasteiros, já que os desportistas eram acompanhados pelos adeptos. Um aspecto curioso é a forma como eram recebidos os de fora. Havia festa, banquetes, brindes e discursos. As primeiras discussões e desacatos à volta do desporto só mais tarde aparecem...»
Havia ainda o hábito de organizar excursões turísticas a outras localidades e regiões. Inicialmente colectivas, com a generalização do automóvel, passaram a ser cada vez mais familiares ou em pequenos grupos de amigos. A partir de iniciativas como esta, Torga depressa criou um pequeno círculo de amizade, que o levou a conhecer melhor, primeiro a região e depois outros destinos, de norte a sul do país.
Do ponto de vista da saúde, para além do Hospital da Misericórdia, a oferta de cuidados médicos, sobretudo especializados, era, não obstante, muito insuficiente, nalguns casos, mesmo inexistente.

A escolha de Leiria

E esse parece ter sido o principal motivo para a instalação de Torga em Leiria. Em Coimbra, local de formação e especialização de médicos, a concorrência devia ser difícil para um jovem acabado de se especializar. Em Leiria não havia nenhum otorrinolaringologista, logo, não sendo muito distante da cidade do Mondego, era a terra ideal para o início de uma carreira.
Torga conhecia a cidade, nas suas andanças para as termas de Monte Real, e gabava-lhe uma certa aura literária. Diz-nos, no «Quinto Dia» de «A Criação do Mundo»:
«Na escolha que fiz de Leiria, tempos depois, para abrir consultório de otorrinolaringologia, pesou sobretudo a pouca distância a que ficava de Coimbra. Como em Sendim [Vila Nova], poderia continuar a fazer dela ponto de apoio clínico e respiradoiro literário. Mas não deixou de influir também na decisão a grata lírica da terra, embalada pelo marulho do pinhal do Rei, situada / Numa planície fresca e deleitosa / A uma rocha íngreme encostada / Donde o castelo a mostra mais fermosa, habitada pelo génio de Rodrigues Lobo, que assim a cantou, e percorrida pelo vulto esquivo de Eça de Queiroz, que parece apontar ainda a cada esquina.
Desde a remota leitura da Corte na Aldeia e de O Crime do Padre Amaro, que ficara preso ao encanto feminino daquela cidadezinha de ruas de curto fôlego e praças de intimismo familiar, acolhedora, a ressumar história e cultura por todas as pedras e ao mesmo tempo impregnada de rura¬lidade. Em nenhuma outra de Portugal era tão indecisa a fronteira entre o urbano e o campestre. As vinhas e os prados entravam por ela dentro numa fusão natural. De qualquer miradoiro que se olhasse, viam-se telhados e copas, calçadas e feno. As veigas do Liz cercavam-na dum lado, e as do Lena do outro. No meio, campanários, chaminés e outeiros granjeados. Daí talvez a circunstância feliz de o bucólico de seiscentos e de o mordaz oitocentista poderem sentir com igual intensidade, a respirar-lhe os ares, a frescura das brisas pastoris e o mormaço das paixões humanas. Do poeta maviosíssimo, como dizia uma inscrição a memorá-lo, pouco rasto havia. Mas do romancista tudo falava ainda. A casa onde morara, o palácio do Terreiro a relem¬brar o escândalo de que fora protagonista, a antiga sede da administração do Concelho, asilo do seu tédio de funcionário.»
A sua decisão é bem acolhida pelos leirienses. O «Região de Leiria», que Torga escolhe para anunciar a abertura do consultório, dá, em 24 de Maio de 1939, notícia do evento:
«No dia 1 de Junho abre consultório nesta cidade, no 1.° andar do prédio que o sr. Marques da Cruz acaba de construir ao princípio da Rua Comandante João Belo, o sr. dr. Adolfo Rocha, especialista de doenças de ouvidos, nariz e garganta. Vindo de Coimbra, onde exercia com a major proficiência a sua especialidade, a permanência do novo médico em Leiria resultará duplamente benéfica para quantas pessoas nesta cidade e região necessitem de recorrer aos seus serviços, nos quais encontrarão, por certo, os melhores resultados, sem os incómodos, inconvenientes e encargos provenientes de terem de procurar longe o tratamento que, assim, lhes está em casa ou quasi à porta.»
O semanário Portugal, incitado decerto por esta informação, dá também, a 4 de Junho do mesmo ano, eco da iniciativa do médico:
«Abriu mais um consultório médico em Leiria, onde o sr. Dr. Adolfo Rocha, distinto especialista em doenças do nariz, garganta e ouvidos, vem suprir uma falta que muito se fazia sentir nesta cidade. É caso, pois, para felicitar a cidade por mais este grande melhoramento que trará grandes facilidades à sua população.»
O problema é que esta informação era inexacta. Embora os primeiros anúncios publicados no Região de Leiria apontassem a abertura do consultório para 1 de Junho de 1939, a partir do dia 8 até 29 desse mês, os quatro anúncios publicados já indicavam «abre brevemente».
É a 6 de Julho que esta intenção se torna efectiva. Nesse e nos anúncios que se seguiram, para além do endereço - R. Comandante João Belo, nº 5, 1º, Leiria - indicam, até ao final do ano, dois telefones: 45 de dia e 42 de noite.

Uma vida pacata

O local escolhido não parece ter sido muito do agrado de Torga. «Abrira a tenda num sítio mau - diz, na ‘Criação do Mundo’. Apesar de ter corrido por todo o lado, não consegui arranjar coisa melhor dentro do apertado orçamento de que dispunha. Um primeiro andar modesto, num cotovelo sombrio e sem movimento. Mas, como a mobília que mandara fazer a um marceneiro remendão e o equipamento estritamente indispen¬sável, adquirido com as magras economias de Sendim, destoariam noutro cenário, ficou tudo em harmonia.»
Visto a esta distância, tal avaliação parece, no entanto, um pouco despropositada. O prédio era novo, conforme indica a notícia do «Região de Leiria» acima transcrita. Estava situado no início da rua que fora a principal via de Leiria em direcção ao sul (antiga Rua da Água) e a poucos metros da praça principal da cidade. Por baixo, havia a taberna da Ti Júlia da Batata Roxa, ao lado, uma barbearia, em frente, um latoeiro. No pequeno largo a que dá acesso a esquina da rua, em frente à casa onde nascera Afonso Lopes Vieira, era costume pousarem algumas vendedeiras. Portanto, aparentemente, não haveria razões para a queixa de «falta de movimento».
Seria até, o local ideal para alguém que se dedicava tão afincadamente à escrita, como era o caso. «E ali passava parte das manhãs e das tardes, sonolento, a atender os raros doentes que a notícia da minha chegada num jornal da terra ia trazendo, a ler e a escrever nos longos intervalos das consultas, enquanto os quartos caíam monotonamente da torre da Sé e a senhora Glória [funcionária do consultório] fazia renda ou ponteava na sala de espera», descreve Torga na «Criação do Mundo».
Inicialmente, Torga ter-se-á hospedado numa pensão local, conforme afirma no mesmo texto, referindo-se à «D. Mónica, proprietária da Pensão Familiar [nomes e designação supostos] em que me hospedei - a amargar na cozinha, carregada de reumatismo, as ingratidões do marido, o Inácio, bonacheirão e femeeiro, e a lamentar na sala, rançosa, os flatos da sobrinha, viúva inconsolável, apesar das traições que fazia ao marido defunto». Mais tarde, quando é detido pela PSP de Leiria por causa da publicação do «Quarto Dia» da «Criação do Mundo», dá como local de residência a morada do consultório.
O que é certo é que, rapidamente, os seus dotes médicos começaram a ganhar fama, nomeadamente, pela resolução de alguns casos «bicudos», como a extracção de uma insuspeita sanguessuga da garganta de um paciente que definhava sem saber o motivo. Pesava ainda o facto de prestar cuidados gratuitos aos menos afortunados…

Em Dezembro desse ano, segundo informações colhidas pela PSP, era este o seu historial médico: havia operado um tal Engenheiro Monteiro, o proprietário da Pensão Central, José Pereira, o artista e professor Jorge Maltieira, o reitor do Liceu de Leiria, Dr. Agostinho Tinoco, e outros. «Consta-me que fez várias [operações] gratuitas por se tratar de pobres» acrescenta ainda o chefe da polícia.
Rapidamente fez alguns amigos, que o haviam de apoiar nos momentos mais difíceis do período leiriense: o Tomé (aliás, José Maria Gomes, agen¬te da Casa Bancária J. E. Magalhães, de Alcobaça, nesta cidade), o Dr. Olívio (aliás, o advogado Alfredo Batista), a D. Gena (cuja identidade nos falta ainda apurar, mas cujo nome foi com certeza inspirado numa figura típica da época, a parteira Eugénia Ferreira, «comadre de quase todas as mães de Leiria» e que organizava o círio dos Milagres) e o marido desta, indicados como proprietários de uma pensão.
No entanto, a sua relação com a elite local era bastante discreta. Diz o chefe da polícia a esse propósito que «nunca fre¬quentou cafés nem clubes e a sua pessoa passava despercebida». Sabe-se que privou com artistas locais como Jorge Maltieira, que operou, Narciso Costa, que o retratou, e Luís Fernandes, que fez bustos dele em materiais diversos, mas essas relações parecem ter-se desenvolvido mais nos anos seguintes ao da sua chegada a Leiria.
Para além das consultas, da escrita, da leitura, do cinema, das récitas e dos passeios, alguns a desoras pela cidade, Torga tinha ainda duas actividades, cujo prazer cultivou ao longo da vida: a caça e o jogo das cartas. No «Diário I», a 2 de Agosto de 1939, relata: «É meia-noite. Acabei agora o dia com uma partida de bisca. (Ainda hei-de explicar aos amigos a razão por que jogo as cartas com a solenidade de quem reza uma missa). Aqui ao lado, a filha do dono da pensão está com dores de parto. Sou médico, mas continuo a estremecer diante do mistério duma mulher grávida. Geme muito ao de leve, mas são gemidos diferentes dos habituais. (Diz a criada, que me serve neste momento o chá, que já se sente a cabeça da criança. Até me engasguei de comovido). O marido da rapariga anda doido pelo corredor além. Que belo e que profundo é isto!»
De espingarda ao ombro, correu vales e outeiros, chegando a deslocar-se, conforme conta, até à «aldeia da Abadia, a branquejar na verdura dos montes».
Essa vida pacata não o livrou, no entanto, de problemas maiores. A publicação do «Quarto Dia» da «Criação do Mundo» haveria de trazer-lhe, como já indiciámos, dissabores junto da polícia política, que o trancou, entre Dezembro e os primeiros dias de Fevereiro na prisão do Aljube, em Lisboa. Mas isso é assunto para a próxima edição.

Carlos Alberto Silva


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