Alda Sales Machado Gonçalves nasceu no Sítio da Nazaré a 9 de Dezembro de 1926, filha de Maria Gertrudes Tormenta Sales, natural do Sítio, e de António da Conceição Machado, de Fanhais. Aos 15 dias de vida, foi viver para Lisboa, onde o pai era marinheiro mecânico e onde ficou até aos cinco anos e meio de idade. «Voltei para o Sítio quando o meu pai foi pela segunda vez para Macau – diz-nos -. Depois o meu pai veio e foi para a Índia. E o meu pai estava na Índia quando viemos para Leiria». Aqui estudou, aqui casou e desenvolveu a sua actividade profissional. Entre outras coisas, foi responsável pelo Arquivo Municipal de Leiria, a partir dos anos 60. A sua imensa energia e curiosidade levaram-na a investigar diversos temas da história local e regional, tendo publicado vários livros e artigos avulso, nomeadamente, sobre heráldica, numismática, desporto, toponímia, o traje regional nazareno e a moda em geral, entre outros. Para além das obras publicadas, tem ainda mais algumas à espera de ganhar corpo nas rotativas da imprensa. É uma antiga e fiel colaboradora do Jornal das Cortes, tendo animado diversas rubricas desde há vários anos.

Numa conversa informal, fala-nos da sua convivência com o escritor Miguel Torga e a mulher, de quem foi aluna. Dá-nos ainda a conhecer um pouco mais sobre a Leiria dos anos 40 e as personagens com quem Adolfo Rocha se relacionou na altura, algumas delas retratadas no «Quinto Dia» da sua «Criação do Mundo». Embora confesse nunca ter lido nada deste autor, diz-nos ter uma óptima opinião dele enquanto médico e enquanto pessoa. Continuamos assim, agora em discurso directo, a trazer a público mais alguns dados sobre a vida do escritor em Leiria.

Jornal das Cortes (JC) - Quer dizer-nos como conheceu o Dr. Adolfo Rocha, conhecido como o escritor Miguel Torga?
Alda Sales Gonçalves (ASG) - Como é que eu conheci o Dr. Adolfo Rocha? Sabe, a primeira pessoa que ele operou foi o meu irmão, António Sales Machado. E o doutor não levou nada à minha mãe pela operação. Ainda hoje não sei porquê… Talvez porque, naquela altura, o meu pai estava na Índia, estava longe, era o tempo da guerra… De maneira que ficou sempre assim uma proximidade. Mas houve uma proximidade ainda maior porque a mulher, a D. Andreia, arranjou maneira de dar aulas de Francês no Liceu. Não era do programa, era um curso prático de Francês. E enquanto cá esteve, foi lá professora. Eu fui aluna dela. Nós tínhamos uma excelente professora de Francês, que era a D. Renata Garcia. Muito mazinha, graças a Deus, mas como professora era muito boa. Sabia e ensinava bem, mas faltava-nos aquele traquejo, porque o Liceu não dava conversação. E a D. Andreia é que nos pôs boas na conversação. Ensinou-me quantas cantigas populares havia em francês. Era o «Frére Jacques», o «Jardin de mon pére» a «Opera de Saint Nicolas»… Ela ensinou-nos muita coisa. E a cantarmos as canções também aprendíamos… Quer dizer, era diferente daquilo que se estava a ler nos livros do programa do Liceu. De maneira que se estabeleceu assim uma ligação…
JC - E de Miguel Torga, o que achava dele?
ASG - Ele era pouco falador. Daquilo que eu conheço dele, era pouco falador. Mas era um excelente médico. O Torga era bom. Era mesmo bom.
JC - Tem alguma lembrança da sua chegada a Leiria?
ASG - Quando veio, veio para a casa onde o senhor sabe onde era. Instalou-se no primeiro andar. E naquela parte da frente que dava para o largozito, onde está agora a estátua do Afonso Lopes Vieira, era aí o consultório. Na parte contrária, era a área residencial.
JC - Ele morava mesmo lá?
ASG - Morava, pois. Mas há coisas no seu artigo [JC, Outubro 2007] que não estão correctas. O prédio não era do Marques da Cruz nada. Não sei de quem era, mas não era do Marques da Cruz.
JC – Mas isso vem no Região de Leiria...
ASG - Mas não é. Eu já lhe explico. A confusão deve ser do seguinte: é que, no primeiro andar, morava ele e tinha o consultório; no rés-do-chão era a padaria do Godinho; ao lado da padaria do Godinho, era uma casa de venda de vinhos ou taberna, explorada pelo Marques da Cruz. Daí a confusão.
JC - Era a tal taberna da Ti Júlia Batata?
ASG - Não, não, não. Não sei se lá estava alguma Ti Júlia qualquer, mas a casa de vinhos era explorada pelo Marques da Cruz.
Em frente, já na rua Comandante João Belo, em frente à padaria do Godinho, era o Iglésias. O Iglésias era um espanhol que veio para Leira - já cá estava quando eu para cá vim - que vendia e consertava chapéus de chuva. É que os tempos eram outros, tinha que se economizar muito, mas mesmo muito. O chapéu estava roto, tinha ali uma coisinha, ia-se ao Iglésias e ele punha um pano novo. Partia-se uma vareta, não se comprava outro, ia-se ao Iglésias e ele compunha a vareta. Ele esteve ali muitos anos.
JC - E a propósito das queixas de Torga de que o sítio onde abrira o escritório era mau?
ASG - Então aquilo tinha tanto movimento, era ali perto da Praça Rodrigues Lobo. E do outro lado, na rua da Graça, havia a barbearia do Máximo, ali onde o Fabião teve uma lojinha de fotografia. Ao lado do Iglésias, era a Pensão Ramos, que não ficava a dever nada, em trato, ao Hotel Lis. Era uma boa pensão. Não sei se ocupava o prédio todo. Se ocupava o rés-do-chão, não tenho ideia, mas ocupava o primeiro andar e o segundo. Com quartos, com instalações… E era uma boa pensão. E eu conhecia muitíssimo bem a D. Júlia. O genro dela, um rapaz chamado Dionísio, era da Nazaré. E esse Dionísio veio para Leiria, porque fazia parte da equipa que veio montar a central telefónica, onde é hoje a junta de freguesia.
JC – Lá em cima ao pé do hospital velho…
ASG - Exactamente! De maneira que casou com uma filha da D. Júlia, que era a Julieta.
JC – Torga terá estado hospedado nessa pensão?
ASG - Pode ter estado, e pode ter ido apenas lá comer, durante o tempo que cá esteve. Quando ele veio e se instalou, tinha uns móveis muito modestos e não tinha loiça. E quando se casou, também não. Portanto, ou a senhora não queria cozinhar ou não sabia cozinhar, não tinha tempo para cozinhar e talvez fossem comer à pensão.
JC – Ele diz no livro que ela não sabia cozinhar.
ASG - Então é isso. Mas, se ele esteve lá hospedado a dormir, foi só enquanto não se organizou. Agora, para comer, ele havia de ir comer a algum lado. Ou ia buscar a comida para comer em casa…
JC - Ele diz que passava lá noitadas a jogar cartas.
ASG - Onde, na pensão?
JC – Na pensão.
ASG - É natural. Não havia televisão, não havia para onde ir, então…
JC - E a D. Glória, a empregada do consultório?
ASG - Esta senhora Glória é a D. Alice, que eu conheci muito bem. Não sei se ela era da Nazaré, se era a mãe e o pai que eram da Nazaré. Quando eu andava na escola primária do Sítio, a professora adoeceu e não foi substituída. Como não havia grandes alternativas, fui estudar para uma escola recém-aberta de um tal senhor França. Eu não sei se esta D. Alice era filha, se enteada desse senhor França. Ela veio para Leiria, fez um casamento desgraçado… Uma senhora que nasceu em berço de ouro. Era de uma educação esmeradíssima. Já em Leiria, ela visitava muito a minha mãe. É daí que eu conheci a D. Alice.
Depois do Torga ter ido embora, essa D. Alice vivia do seguinte… É que… sabe? antigamente, naquelas casas de nível social mais alto, os colarinhos e os punhos das camisas dos homens eram engomados. A goma era comprada no Fernandes, diluía-se em água e depois com uma «boneca» de pano molhavam-se as peças e toca a passar a ferro e aquilo ficava teso. E havia uns «naperons» bordados à «Richelieu» que custavam muito a passar a ferro. Então, molhava-se aquilo com a gomazinha e toca a passar. E essa senhora era uma grande engomadeira e sustentava a casa à conta desse trabalho. Os filhos, não sei se eram dois se eram três, ela é que os criou. Eu não sei o que é que o marido fazia, mas deixou-a com os filhos pequenos.
Essa senhora era muito bonita. Tinha os olhos e um sorriso muito bonitos. Coitadita, morreu na miséria. Mas viveu sempre numa pobreza envergonhada, nunca aceitava nada de ninguém. Às vezes, assim já malzita, ia a casa dos meus pais visitar- nos. Se estávamos à mesa, julga que ela comia alguma coisa? «Ai, eu já comi», dizia. Sabe-se lá, cheia de fome… Numa ocasião, andava eu na praça a fazer compras, trazia umas couves e vi-a. «Ó D. Alice, espere aí. Olhe, que disparate o meu. Comprei duas couves, mas isto, para levar para a Estrada da Marinha, pesa como chumbo. Faça-me o favor e leve uma. É um bem que me faz». Tinha que ser assim. De outra forma não aceitava nada.
Porque ela tinha nascido muito bem. Era muito prendada. Nasceu em berço de oiro, pode crer. E muito educada. A amante do marido, quando ele morreu, foi chamá-la a casa, para que tratasse do enterro.
JC – E que relações tinha Miguel Torga com as pessoas da sociedade leiriense?
ASG - Bem, ele em Leiria não fez grandes amizades.
JC – E com os artistas locais?
Havia, na rua de Alcobaça, um bocado acima do que foi a casa de saúde, um armazém, onde chegou a estar, mais tarde, uma espécie de supermercado. E aí ou ao lado havia o que alguém uma vez definiu por «covil de arte». Nesse «covil de arte» estava essa rapaziada toda de que fala no seu artigo. Lá ia o Narciso Costa, lá ia também o Korrodi, lá ia o Luís Fernandes, lá aparecia o Lino António… Uns pintavam, outros desenhavam, outros esculpiam, etc. E foi lá que o Luís Fernandes fez este busto [foto do JC, nº 238]. Este busto não está muito bom, não reflecte muito as feições dele. Houve uma ocasião, até ouvi dizer não sei a quem que ele [Torga] também começou a querer iniciar-se na modelagem. E acho que ainda mexeu lá num busto dele em barro [risos]. Mas ele aparecia por ali. Quanto mais não fosse, ia servir de modelo.
JC – Em 1940 foi a Exposição Distrital de Leiria e os do «covil de arte» participaram todos. Foram eles que se encarregaram dos aspectos decorativos da exposição.
ASG - Sim, sim, sim. E o comissário daquilo tudo foi o Horácio Eliseu.
JC – Outra referência que ele faz no livro é à biblioteca erudita…
ASG - Que funcionava nas traseiras da Sé. E onde o Dr. Alfredo Carvalho, que era nesse tempo o director e meu professor de Português, quase que nos obrigava a ir uma vez por semana a umas palestras que ali se realizavam. E ele falava, falava e nós, no dia seguinte, tínhamos que fazer algum apontamento sobre o assunto. De maneira que tínhamos mesmo de ouvir, mesmo que não quiséssemos. E estavam presentes, sobretudo, homens. Mas não tenho ideia nenhuma de lá ver o Miguel Torga. E às vezes, até talvez… Aquilo abria às nove da noite. E era até às onze ou até à meia-noite. Com a D. Aida Martins a tomar conta daquilo.
JC – Já agora, como era a D. Aida?
ASG - A D. Aida era uma excelente pessoa…
JC – E do ponto de vista físico?
ASG - Era amorenada, com a cara assim larga, grande, com uns lábios cheios, uns olhos grandes… Ela tem uma neta que é muito parecida com ela. Era uma pessoa interessante e que vestia bem.
JC – Mas era uma pessoa bonita?
ASG - Era, era…
JC – Torga fala da funcionária da biblioteca como se ela fosse uma beldade.
ASG - Uma beldade talvez não fosse…. Ah! Espere aí! É que havia uma funcionária da biblioteca - que foi funcionária pouco tempo - que era muito linda. Mas não era a D. Aida. Era a Lucinete Estrela, que é mãe do Jorge Estrela. Era muito bonita essa senhora. Estou a vê-la, loura, de risco ao meio, com duas trancinhas. Essa é que era linda. A D. Aida não. Não era feia, mas não era uma beldade. Agora essa, essa era muito bonita.
JC – Morava alguém da família da D. Lucinete por cima do consultório do Torga?
ASG - Não, não. Mas não sei onde é que eles moravam.
JC – Ele refere as visitas dela a casa de uma irmã, por cima do consultório.
ASG - Pois, ela tinha irmãs. Não sei se era uma ou mais que uma. Ela ainda é viva.
Todos os rapazes em Leiria… não é que cobiçassem, não é isso… todos estimavam aquela menina e todos a protegiam. Ali ninguém podia tocar. Naquelas teatradas que se faziam em Leiria – teatradas entre aspas, porque fizeram bom teatro – parece-me que a Lucinete também entrava. [De facto, participou, pelo menos, na opereta «Alda», em 1941]. O pai era o general Estrela. Acho que era general…
Ela tinha um porte lindo, elegante, sempre muito bem vestida e bonita de cara. Então, aquele penteado, meu Deus…
JC – Outra coisa intrigante é que ele diz no livro que, quando casou, montou o seu «lar provisório armado com trastes de feira numa antiga moradia de caseiros».
ASG - A casa para onde ele foi era uma casa nova…
JC – Mas que era também o consultório…
ASG - Era.
JC – Portanto, ele aqui está a fantasiar. Porque o livro é uma obra de ficção, embora inspirado num cenário real, que é a Leiria dos anos 40.
ASG - Eu nunca li nada dele.
JC – Mas isto é muito curioso. Porque ele faz um retrato do ambiente de Leiria e depois vai trocando os nomes, as situações, etc.
ASG - Pois…
JC - Outra questão tem a ver com o livro que o levou à prisão e a sua venda em Leiria. Os documentos da PIDE referem que os únicos livros que apareceram em Leiria foi numa papelaria, existente no Largo 5 de Outubro.
ASG - Ah! Era a papelaria do Moreira.
JC – Mas havia outras livrarias em Leiria?
ASG - Havia. Havia na Praça Rodrigues Lobo a papelaria Académica, onde é hoje uma pastelaria ou coisa assim, que faz esquina com a Rua Afonso de Albuquerque. Eu comprei lá tanto livro…
JC – Torga faz ainda referência a um facto real muito marcante para a época: o vendaval de 1941. Lembra-se dele?
ASG - Oh! Então não me lembro? Nem me diga nada, que ia morrendo. Eu morava no Bairro dos Anjos, vinha do liceu - tínhamos tido uma aula de desenho, vinha com prancheta e tudo - e, ao subir aquelas escadinhas que havia onde está hoje o túnel da ponte, sem dar por isso, estava do outro lado da ponte. O vento é que me empurrou para lá. Por acaso levava a prancheta. A prancheta tropeçou no murete da ponte e foi o que me valeu. Senão tinha caído ao rio.
Nesse ciclone, o rio transbordou de tal maneira que passou por cima daquele murinho que está no parque, a ladear o rio. O parque era um lago de água. Houve muitas árvores derrubadas. Eu morava mesmo em frente, na rua Comissão de Iniciativa. Nessa altura ainda eu morava numa casa de segundo andar. De maneira que assisti a isso tudo.
JC – Tem alguma ideia de que, depois de Torga ter voltado da prisão, em 1940, houvesse mexericos sobre esse assunto?
ASG - Não, não tenho. Eu era miúda, tinha 12 anos. E esse tipo de coisas, a uma miúda de 12 anos, passava tudo a leste. Eu andava muito pelas minhas amizades do liceu, não tenho ideia nenhuma disso.
Mas havia uma coisa nesse tempo… nessa rua onde eu morei, a rua Comissão de Iniciativa, a D. Eugénia parteira tinha lá uma casa. E havia uma afilhada dela, que era a D. Etelvina de Sousa, que vivia lá… E, no rés-do-chão da casa onde essa senhora vivia, havia grandes serões. Naquele tempo não havia televisão, mas havia uns grandes serões ali. Quer dizer, anos mais tarde é que eu conheci as pessoas de quem se falava quando eu era mais novita. E sei histórias mirabolantes de pessoas de Leiria, ouvidas nessas seroadas. Leiria era, nessa época, um foco de maledicência terrível. De maneira que se sabia assim muita coisa e, às vezes, algumas que até eram inventadas, se calhar. Eu era garota, mas nunca ouvi nessas conversas nada a propósito do Torga. Nunca ouvi nada.
JC - Torga diz ainda que um dos polícias que o prenderam no consultório foi lá depois levar o filho para ele tratar…
ASG - [risos] Pois, era o único otorrino.
JC - … e que tratou o moço e não lhe levou nada.
ASG - Ele não fez fortuna em Leiria. Era das pessoas que não fazia fortuna, nem fazia banca da profissão. Mas era um excelente médico e as pessoas reconheciam isso.

Carlos Alberto Silva


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