Nasceu na freguesia de Cortes em Janeiro de 1958. Licenciou-se em Ciências Históricas pela Universidade Lusíada. Atingiu o grau de mestre em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Ao longo da sua carreira foi professor do ensino secundário nos seguintes antigos liceus: Jaime Moniz no Funchal, Pedro Nunes e Maria Amália Vaz de Carvalho em Lisboa. Ainda no liceu Rodrigues Lobo em Leiria e finalmente na Escola Secundária de Porto de Mós. No campo literário tem um livro intitulado “Cultura rural – A história no presente”, publicado em 2002 pela “Editorial Diferença”.

João Pires – No ano de 2002 escreveste um livro que abrange a área da história e das ciências sociais, intitulado “Cultura rural – A história no presente”. O que é que te moveu a escrever sobre este tema?

Manuel Moniz – Em primeiro lugar, porque nasci e vivi inserido num meio rural. E portanto, conheço a cultura das pessoas ligadas à terra, isto é, os seus modos de agir, de sentir e de pensar. Em segundo lugar, porque procurava estudar a actualidade das sociedades semi-agrafas para melhor entender o passado. Nestas sociedades por muitos consideradas arcaicas, predomina o direito consuetudinário (direito de transmissão oral) e nas quais há uma mudança de valores sociais, culturais e económicos, enquadrada numa continuidade ancestral. Neste sentido o sociólogo, o historiador social e o antropólogo devem sentir, pensar e viver a cultura que estudam.

JP – Tendo em conta que durante o Estado Novo a nossa sociedade era essencialmente rural, como achas que evoluímos depois do 25 de Abril?

MM – Em Portugal existe uma dicotomia entre a cidade e o campo. Neste momento os valores citadinos invadem os meios rurais e os meios urbanos também estão impregnados de ruralidade. Neste sentido, o nosso país principalmente no litoral corre o risco de se transformar num extenso subúrbio, conduzindo a uma desintegração cultural e social das populações. O salazarismo apostou no imobilismo social, porque o ditador sabia que se procedesse à industrialização do país, criaria uma classe operária que lhe seria hostil, contribuindo assim para a sua queda. Contudo Salazar, não conseguiu travar completamente a industrialização.

JP – És da opinião que depois do Estado Novo, começámos a abandonar o trabalho no campo…

MM – Não imediatamente. Portugal tinha uma agricultura campesina. Tratava-se de uma agricultura familiar, na qual se produzia para consumo da família e que vendia os excedentes como fonte de rendimento, para comprar aquilo que de outro modo não podia adquirir. Neste sentido a agricultura camponesa, encontrava-se dentro e fora do sistema capitalista. Com a entrada na União Europeia, os fundos estruturais europeus pretendiam transformar a agricultura familiar, numa agricultura individual e capitalista. Todavia, tal não foi possível porque as intenções europeístas colidiram com uma cultura ancestral, que impediu a sua transformação. Os dinheiros vindos de Bruxelas serviram apenas para comprar jipes e casas no Algarve.

JP – A agricultura é essencial para a sobrevivência do nosso país?

MM – Portugal sempre foi um país agrícola, mas neste momento temos uma sociedade de consumo, que está muito longe de produzir e satisfazer o mercado interno. A nossa salvação está cada vez mais, não só, no desenvolvimento agrícola, mas também no aumento da produção da nossa indústria têxtil, calçado, etc. Enfim, produzirmos em qualidade e quantidade, para conseguirmos também aumentar as exportações.


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