Nasceu a 4 de Maio de 1951 em Leiria. É licenciado em História (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), tem um mestrado em Estudos Euro-asiáticos/História (Universidade de Macau) e é doutorado em Ciência Política, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Pós graduação em Ciências Documentais/Arquivo e desempenhou desde 1994 até 2010 as funções de director do Arquivo Distrital de Leiria. A nível profissional foi também técnico superior de BAD na Escola Superior de Educação de Leiria, professor do ensino secundário e do ensino superior e técnico superior no Arquivo Histórico de Macau entre 1990-1993. Foi ainda funcionário da Direcção Distrital de Finanças de Leiria e vereador na Câmara Municipal de Leiria entre 1998-2001. Actualmente é presidente do Orfeão de Leiria. Lançou em Maio deste ano, através da Editora “Textiverso” o livro chamado “Elites Políticas de Leiria: 1910-2000”, que é também a sua Tese de Doutoramento em Ciência Política/Elites e Pensamento Político.

João Pires – No teu livro “Elites políticas de Leiria: 1910-2000”, afirmas que na passagem dos regimes: 1ª República, Regime totalitário e República pós - 25 de Abril; embora tenham havido essas mudanças de governos, houve uma continuação de alguns quadros, que transitaram de um para o outro regime. Isso também aconteceu em Leiria e dizes tu, que a proximidade de Fátima influenciou essas transições…

Acácio de Sousa – Nas mudanças de regimes há sempre quem se adapte às novas circunstâncias, assim como as novas estruturas políticas tendem a aproveitar a experiência de vários elementos que possam servir o poder que se instala. Isso foi claro, em Leiria, com a continuidade de protagonistas de topo nas mudanças dos vários regimes ao longo do séc. XX, mas isto é uma característica geral e não uma consequência directa da proximidade de Fátima. O que eu digo é que quanto ao aspecto religioso, na 1 ª República ficou clara a dificuldade que o regime teve para chegar a todo o país, principalmente à província. Foi difícil para eles serem compreendidos nos meios rurais. Essa foi uma das razões para não haver sufrágio universal, pois assim era reduzido em parte o peso da igreja que era muito acentuado na maioria da população. É discutível do ponto de vista ideológico, mas de facto, isto passava-se dessa maneira. A partir de 1917 em Leiria, as coisas ainda se vão tornar mais difíceis para o regime. E a resistência ao regime vai-se tornar mais forte do que nas outras localidades do país, porque o extraordinário fenómeno popular em torno de Fátima vai centrar aqui uma forte mensagem anti-republicana. Em Leiria a principal oposição é feita pelo padre Lacerda (director do “Mensageiro”, jornal da igreja). Um verdadeiro paladino das ideias que se opunham à República. Em 1918 é instalada a diocese e o novo bispo que entra em 1920 vai assumirFátima, como um centro de espiritualidade e de forte combate anti-republicano e mais tarde anticomunista.

JP – Com a chegada do Estado Novo a situação altera-se?

AS – Reforça-se. A proximidade geográfica e o facto de Fátima, “altar do mundo” estar integrada na diocese de Leiria, vai trazer um maior peso de influência sobre os atores políticos, agora num regime em que a Igreja Católica não sendo a Igreja oficial era a Igreja nacional. Não é por acaso que em Leiria se vão manter durante todo o Estado Novo e até muito recentemente dois jornais de sucesso, ligados à igreja: “Mensageiro” e “Voz de Domingo”. E embora tenham uma mensagem pastoral, a mensagem política também lá está. E mais ainda, até finais dos anos oitenta (já no regime democrático) esta influência foi-se mantendo sob uma outra forma, não de uma maneira tão evidente, mas ela é visível na aproximação que os políticos dos primeiros anos da Democracia vão procurando fazer junto às elites eclesiásticas.

JP – É uma tentação da igreja, controlar a opinião civil?

AS – Não estou a dizer isso. Neste trabalho não faço juízos e apenas procuro trazer evidências e não há dúvidas sobre a influência que a Igreja exerce sobre as populações ao veicular os seus valores doutrinários. Estes, muitas vezes são indissociáveis do quotidiano, isto é, da execução dos ideários políticos. A esta capacidade de influência os políticos não se costumam alhear. A igreja sempre foi um pouco adversa às mutações da modernidade. Mas isso, não quer dizer que não houvesse membros do clero que, do ponto de vista ideológico, não tivessem pontos de vista diferentes. A igreja enquanto instituição, não embarca de repente em grandes mutações ou mudanças. No entanto, nela assentam bases civilizacionais com valores e acções assistenciais de grande notabilidade na sociedade.

JP – Dizes no teu livro que na passagem do Estado Totalitário para o Regime Democrático, membros do partido político da ditadura (Acção Nacional Popular), transitaram para lugares do aparelho democrático…

As – É verdade, sobretudo deputados mais ligados à ala liberal do ANP fazem essa transição, havendo figuras importantes do antigo regime que servem de tampão entre a euforia revolucionária e a passagem pacífica para o novo regime. E conseguem fazer essa ponte muito bem. Por outro lado, a nível de cargos públicos, isso é muito evidente. O primeiro presidente de câmara de Leiria eleito, foi vereador no último mandato do Estado Novo. O segundo presidente de câmara também vinha de relevantes cargos públicos anteriores e da estrutura da ANP e houve mais casos.

 JP – Havia oportunismo nessa mudança de valores políticos?

AS – Tornou-se popular o termo “vira-casacas” por causa dessas atitudes. E é evidente que em certos casos era verdade, mas pode não ser sempre assim. Eu acredito na adaptação de algumas pessoas a novos valores ideológicos e que mudam realmente por convicção. E há o outro lado da questão: é que uma onda de saneamentos e mudanças, por exemplo na administração pública pode provocar o seu colapso. Temos o caso do Governador Civil de Leiria, que se demitiu logo a seguir ao 25 de Abril e quem o substituiu até Setembro de 1974 foi o secretário do Governo Civil. Este desempenhou o cargo com seriedade e dedicação, apesar da altura conturbada e revolucionária que se vivia. Portanto, eis um bom exemplo de desempenho das suas funções, apesar dos regimes opostos. Contudo, entre uns casos e outros, surge também e sempre a elasticidade de muitos oportunistas.


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