Paulo Assim, que é o pseudónimo de Paulo Carreira, nasceu em 1965. Em poesia tem participações nas I, II e III Antologia de Poetas Lusófonos, das Edições Folheto de Leiria; em prosa tem publicado o romance "A Quinta-feira dos Pássaros", com o qual ganhou os prémios Paul Harris 2005 e Gaspar Fructuoso 2009. "Celulose" é nome do seu primeiro livro de poesia e Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres de 2010, seguindo-se “Mão sobre os olhos”, também Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres de 2011. Recebe o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2011, com o livro "Retrato a Sépia". Em 2012 ganhou ainda o Prémio Literário Horácio Bento Gouveia, com o conto "A Aviaras". Também de poesia o livro "Póvoa de Varzim ou o Paraíso Aqui", que foi premiado na Póvoa de Varzim nas Correntes d’Escritas 2013. Ainda o Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage 2013, poesia. Prémio de Poesia Raul de Carvalho 2013. Prémio de Poesia Soledade Summavielle 2014, com o livro «Árvore Genealógica».

"Dizias que eras capaz de imitar uma árvore de fruto. / E como eu não acreditava, um dia fizeste isso: nua, / fincaste-te ao chão e criaste uma cabeleira de raízes, depois / ergueste os braços, abriste os dedos em forma de ramos / e deixaste que as folhas te pintassem de verde. / Absorveste todo o sol no ventre, floriste. / Por fim frutificaste o corpo: / agora és um voluptuoso dióspiro / no frio de Janeiro.".

João Pires - Qual é a tua opinião acerca da situação actual em Portugal da literatura e da arte de uma maneira geral?

Paulo Assim – Da arte em geral não poderei dizer grande coisa, uma vez que certos sectores me passam ao lado, ou vou vendo e ouvindo um pouco disto, um pouco daquilo. Apesar do pouco investimento na cultura por parte das instituições públicas, certamente que há artistas que se vão notabilizando pelo seu desempenho e direi mesmo coragem em seguir em frente. Leiria, por exemplo, é uma cidade que me parece bastante dinâmica culturalmente devido ao empenho de artistas e autores que querem mostrar aquilo que são capazes de fazer, e de um modo geral as pessoas interessam-se e aderem. Há por aí gente a dar cartas na música, no teatro, na pintura, gente nova, aliás, e isso agrada-me bastante. Quanto à literatura portuguesa, está bem de saúde e recomenda-se. É verdade que se publicam imensos livros em Portugal, estima-se numa média de trinta e seis por dia. É muito livro! Quantos chegam às livrarias? Uns são de qualidade, outros nem por isso, e mesmo os de qualidade passam ao lado da crítica e dos leitores. Seja como for, temos bons escritores e excelentes poetas, ou vice-versa.

JP - Tens manifestado a tua opção pelo que é antigo e tradicional. Achas que os valores do idealismo, por exemplo dos anos sessenta, ainda se mantêm válidos numa sociedade cada vez mais controlada pelos centros financeiros? Ou como disse John Lennon: "O sonho acabou..."?

PA - Seria uma perda de tempo acreditar nesses valores dos anos sessenta e querer vivê-los agora. Esse sonho acabou, sim. O mundo deu demasiadas voltas, o ser humano teve entretanto outros sonhos e pô-los em prática, uns correram bem, outros correram mal. Mas o fascínio existe sempre e até é fonte de inspiração. O antigo tem uma história colada. Por exemplo, uma casa antiga e abandonada é um mundo fértil de lembranças e emoções, podemos até apaixonar-nos pela simples ideia de imaginar que homens e mulheres viveram ali, que dramas, que amores se desenrolaram ali. Os móveis, as peças de loiça partidas, os livros amarelos, o pó, os jogos de sombra e luz, o ranger do soalho… tudo isso espicaça a mente. Para nossa felicidade, os centros financeiros não controlam a nossa vida por inteiro e portanto não nos tiram a faculdade de poder imaginar o que pensamos ser o sonho. Ou pelo menos por enquanto…

JP - Quando ganhaste o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama com o livro "Retrato a Sépia", foi dito pela organização do certame que:“uma poesia aparentemente simples, intuitiva, muito fresca e cativante”, num percurso “de memórias que ruma à infância, a tempos idos...". Quando buscas na tua memória a infância, também procuras a tua identidade?

PA - A infância é um tema recorrente, gosto de lá regressar e trazer parte de mim. Num poema, escrevo assim: «saio para a rua, esse lugar chamado infância». A infância é a rua do homem, do adulto; a rua é o lugar onde todas as coisas acontecem, é onde crescemos, onde nos relacionamos e até onde sonhamos. É onde está a nossa identidade. Portanto ir à rua é ir à infância. Claro que esta é uma ideia para uma pessoa já com cinquenta anos, porque as crianças de hoje, daqui a trinta ou quarenta anos, certamente não pensarão da mesma forma por passarem muito tempo fechadas em casa com os olhos postos na televisão ou no computador. A rua não lhes dirá muito, é outro tipo de infância. Um pássaro, um ninho, um grilo ou um carreiro de formigas não terão qualquer importância na vida delas.

JP – T S Elliot disse num seu poema "...O tempo passado e o tempo futuro/ O que podia ter sido e o que foi/ Tendem para um só fim, que é sempre presente.". Numa entrevista disseste que querias ser sempre criança. Tentas capturar na escrita o tempo que já passou, de modo a torná-lo eternamente presente?

PA - A escrita tem esse dom, diria mesmo que tem essa finalidade: tornar o passado em presente. O cinema também tem. Mas abrimos um livro e nadamos num rio, abrimos outro e roubamos nêsperas com os amigos, noutro damos o primeiro beijo. Não me surpreenderia se fosse ali (ao velho baú), abrisse um dos meus diários dos anos oitenta e ficasse literalmente agarrado ao passado como se vivesse o presente. Porque é o passado que nos agarra e nos esbofeteia, que nos acorda do torpor, do tédio. Costumo dizer que só o passado existe. O presente é qualquer coisa de irreal, devido à velocidade do tempo (o que acabei de dizer já é passado) e o futuro é uma teoria. O passado está na memória, sim, mas é na escrita que ele se prolonga, se eterniza.

JP - Ultimamente tens escrito mais no formato poético. O que é que te dá mais gozo escrever, prosa ou poesia?

PA - Poesia. Sim, neste momento, a poesia é uma necessidade, sem dúvida. Tanto assim, que existe uma tendência natural de inserir a poesia ou dar uma pretensão poética em tudo o que escrevo. Já escrevi um romance, já escrevi muitos contos, mas a poesia é onde estou bem. Como já disse noutras entrevistas, digamos que a poesia é um rio, posso atravessá-lo a nado ou mesmo passo a passo, sem medos e sem fadigas, e até posso saber onde é a nascente; o conto já se parece mais com um lago, que pode ser profundo e ocultar alguns perigos, como a súbita aparição de Nessie, o famoso monstro de Loch Ness; o romance, esse então é um mar imenso, repleto de perigos e imprevisibilidades, como tempestades, corsários, tubarões, sereias também, e aqui é preciso dominar muito bem as técnicas de navegação.

JP - Para ti o poema é uma manifestação interior que vai ao mais profundo e às vezes é rebelde; ou por vezes pensas mais na sua beleza formal, a fim de agradar a alguém? Pergunto isto, porque existe aquele dilema antigo, entre o poema/realidade. Isto é, como manifestação interventiva e a opção da arte pela arte, cujo objectivo principal é a sua beleza estrutural de modo a soar bem.

PA – No que me diz respeito, agarro-me à poesia como necessidade de agradar a mim mesmo, tento alcançar a subtileza e ao mesmo tempo mostrar que a poesia em si não é uma inutilidade. Não sendo reaccionária nem rebelde, pode contudo despertar sensações ou emoções, pode fazer regressar, e regressar é aqui entrar em mim, abrir-me, expor-me, dissecar o que não consigo dizer falando. O objectivo é que os leitores também sintam isso. E termino assim: «A minha mãe era feita de mãos. / Se as fechava, guardava segredos feitos de sal. / Se as abria, soltava a mansidão dos anjos. / Dela, a mão de que eu mais gostava era / a mão que postava sobre o olhar desassossegado / para me reconhecer ao longe, / vindo eu do fundo da tarde. / A minha mãe era feita de mãos / e cada mão era uma mãe.»


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