Nasceu em Leiria, a 12 de Março de 1986 e reside na localidade de Reixida, Cortes. Em 2004 ingressou no curso de Mestrado Integrado em Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Apresentou em Fevereiro de 2012 a tese de dissertação para a conclusão de mestrado com o título "Leiria: A evolução do espaço urbano da cidade moderna (1926-1974)". Este trabalho foi distinguido em 2011 na 1.ª edição do Prémio de História Local, Villa Portela, promovido pelo Eng. Ricardo Charters d’Azevedo em parceria com a ADLEI (Associação para o Desenvolvimento de Leiria) e apoiado pela Câmara Municipal de Leiria, pelo Instituto Politécnico de Leiria e pela Gradiva, editora que publica o livro em 2013. Integra desde 2014 o colectivo de arquitectos [area27] que fundou em conjunto com João Bastos e Vasco Silva.

João Pires - Na entrega do prémio "Villa Portela", o júri do concurso considerou que a tua obra reveste um evidente carácter inovador e contribui para acrescentar conhecimento inédito e motivar novos estudos tanto no âmbito da história local leiriense, como ao nível nacional.”

Joel Correia - É inovador porque esta área do urbanismo nunca havia sido estudada neste período histórico. Só havia estudos sobre o século XIX, o princípio do século XX só tinha ainda sido aflorado. Na minha tese académica que deu origem ao livro tento preencher essa lacuna. Além disso é inovadora a abordagem ao tema feita da perspectiva da disciplina da arquitectura, comparando o contexto de Leiria com o contexto nacional. No período estudado o meu livro dá-se uma grande explosão urbanística que viria a marcar a imagem da cidade até aos dias de hoje.

JP - Foi por necessidade que houve essa "explosão urbanística"...

JC - Sim. Leiria termina o século XIX ainda com as marcas deixadas pelas Invasões Francesas e as Lutas Liberais e conserva ainda muito da malha medieval. No início do século XX há um aumento da população as cidades portuguesas são um terreno fértil para os grandes planos de urbanização que viriam a acontecer ao longo do século. Embora em Leiria não tenha tido o mesmo impacto que teve nas grandes cidades, os planos desenhados ao longo do século passado acabam por deixar a sua marca mais ou menos fragmentada. Começa com Ernesto Korrodi na envolvência do convento de Santana, que estava devoluto na altura e foi comprado pela câmara para urbanizar. O mercado Santana é a primeira grande obra dessa urbanização. E este é também o primeiro grande plano organizado para a cidade de Leiria e que ainda hoje, marca a geometria da malha urbana de Leiria.

JP - É verdade que desviaram o caudal do rio?

JC – Sim é verdade. O rio passaria mais próximo do que é hoje o Largo 5 de Outubro e a cidade era frequentemente assolada por grandes cheias que punham em causa todas as construções situadas na sua proximidade. Terá sido ainda no século XVIII, por decisão da Casa do Infantado e na sequência dos planos de Oudinot, que o rio foi desviado para o seu curso actual, fazendo uma grande inflexão após a antiga Ponte dos Três Arcos e seguindo em linha recta até à zona do Convento de S. Francisco. Os grandes taludes contruídos naquela época para conter o rio dariam mais tarde origem ao Passeio do Marachão. Esta intervenção acaba por ter influência no período que abordo no meu trabalho por permitir a expansão urbana que se viria a verificar já no século XX com a construção da zona envolvente à Avenida Heróis de Angola. As contruções da avenida tiveram que ser feitas sobre estacas de madeira por estes terrenos recuperados ao rio terem grandes infiltrações no subsolo. Apesar do benefício que a intervenção de encanamento do rio teve para o processo de urbanização, acabou por criar uma cisão entre a cidade e o mesmo por ser dificil criar uma relação entre o tecido urbano e um curso de água que passa a uma cota muito inferior.

JP - Tens figuras dentro da arquitectura que admires e que te tenham influenciado?

JC - Tenho muitas referências, mas não fico muito preso a elas. A nível nacional admiro algumas figuras da escola do Porto como o Arquitecto Fernando Távora ou Eduardo Souto de Moura pelo respeito que demonstram nas suas obras pelo contexto regional e pelas pessoas e pela forma quase poética como tratam os materiais. Acima de tudo como arquitectos temos uma grande responsabilidade social e temos que responder às necessidades de cada pessoa que nos contacta sabendo sempre enquadrar o nosso trabalho no contexto urbano e cultural actual. Acabamos sempre por trabalhar para as pessoas: quer seja como sociedade ou como individuo que nos faz uma encomenda. E nada nos deixa mais satisfeitos do que o sorriso de felicidade de uma pessoa quando apresentamos o nosso trabalho.

JP - Como é que se sente um arquitecto a trabalhar em Leiria?

JC - Os arquitectos que trabalham localmente, acabam por ser em parte prejudicados no reconhecimento do seu trabalho por estarem afastados dos grandes centros das decisões, onde acontecem as grandes obras. Em Portugal só Lisboa e Porto têm uma dimensão que pela sua escala permite aos arquitectos experimentar as grandes correntes da arquitectura internacional. Se já existe um desfasamento entre o que se passa nas grandes cidades europeias e Lisboa, numa pequena cidade, como era Leiria no período que abordo, acabam por ser quase imperceptível a aplicação da gramática presente nos modelos internacionais. Interessa acima de tudo perceber como é que os projectistas que trabalharam nesta cidade, longe dos grandes centros urbanos, adaptaram escalas e programas às condicionantes locais. E acho que tivemos em Leiria arquitectos que em nada nos envergonham, cabendo-nos a nós dar-lhes o destaque que merecem. Todos conhecem Ernesto Korrodi e a sua importância para esta cidade, mas poucos sabem da importância para o urbanismo do século XX do seu filho Camilo Korrodi, de Fernando Santa-Rita ou de António Varela que foi pioneiro da arquitectura modernista em Leiria e figura muito presente na cena cultural. Acho que hoje já não se sente tanto essa dificuldade no reconhecimento do nosso trabalho por estarmos fora dos grandes centros. Com a facilidade com que a informação circula podemos até estar a trabalhar numa aldeia do interior e ver as nossas obras aparecerem em publicações online.

JP - O Camilo Korrodi foi como pai para a cidade de Leiria?

JC – Quase toda a estrutura da cidade moderna é da autoria de Camilo Korrodi. Ele faz muitos dos projectos das nossas “avenidas novas”, a Avenida Combatentes da Grande Guerra, a Avenida Heróis de Angola com destaque para o edificio da rodoviária, a Avenida Marquês de Pombal ou a Avenida Nossa Senhora de Fátima. Camilo Korrodi tanto teve presente no desenvolvimento do desenho urbano enquanto arquitecto da câmara municipal como no desenvolvimento das arquitecturas que iam compondo a malha urbana. Ele trabalhou com arquitectos de renome nacional e acompanhava as correntes internacionais da arquitectura, acabando por adaptar a gramática modernista às condicionantes locais, desenvolvendo muito a tipologia do prédio.


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