poetaNasceu em 7 de Agosto de 1956, no seio de uma família proveniente de uma aldeia junto à Serra da Malcata (Quadrazais, concelho do Sabugal) e vive em Leiria desde os 5 anos de idade. Frequentou o Liceu Nacional de Leiria e mais tarde estudou na Universidadede Coimbra, onde sedoutorou e é Professor. Reside em Marrazes, Leiria. Tem mais de duas dezenas de livros editados de âmbito literário(maioritariamente poesia). Publicou o primeiro livro em 1993 ("A Invenção do Tempo e Outros Poemas") e o mais recente em 2014 ("Guarda-me contigo entre as papoilas"). Pelo meio editou ainda, principalmente pelaEditorial Diferença, os seguintes livros: "Falar à aves", "O livro do pó", "O caminho do país lilás", "Viver", "O livro dos salmos", "O livro dos cânticos", "A poeira dos dias", "A última ceia", "O perfume da flor", "A fuga das cidades", "Deimmenso", "Alguém que tu conheces", "Imensitude", "O sinal de Jonas", "Em cada um", "Onde", "As estações de Deus". E ainda,crítica literáriaemparceriacomJoão Rui de Sousa, José CarlosGonzález,Travanca-Rêgoe Fernando Guerreiro, bem comouma ficção com Maria Rosa Colaço. Adepto da prática desportiva,édesde há alguns anos praticante na Academia deTaekwondode Leiria. Éfundador, juntamentecom Carlos Fernandes e Luís Vieira da Mota,dos "Serões Literários das Cortes".

 

 

João Pires - No livro "As Estações de Deus" o poema "linha solta" diz: "e dá-me rosas/ rosas na minha alma presa/ ao tempo das coisas/ esta linha solta"...

Carlos Lopes Pires - É simplesmente um poema alusivo à caducidade da vida humana. Aliás, o título do livro (“estações”) refere-se às etapas em que decorre a vida de uma pessoa. É um livro sobre a morte e, eventualmente, o seu sentido.

JP - No poema "Através" do livro "De Immenso" escreves: "Através do sono das árvores,/ o seu coração pulsa/ e atravessa o voo nocturno das aves.". Acreditas num Deus omnipresente em todas as coisas ou pensas que Deus é o próprio Universo?

CLP – Sobre a questão de Deus tenho uma espécie de “teoria” (que, aliás, é apresentada num livro de inéditos chamado "Sou Deus e quero chorar"): creio que Deus já existiu, talvez tenha criado o Mundo e tudo o que ele contém, mas entretanto Ele mesmo pôs termo à sua existência. Creio que esse termo aconteceu quando Jesus Cristo estava crucificado. Jesus pode ter sido o primeiro a dar-se conta do Seu desaparecimento, exactamente quando estava no clímax do seu sofrimento (daí a sua enigmática pergunta: “Pai, por que me abandonaste?”). Agora estamos todos muito abandonados e por culpa nossa, claro.

JP - Dizes que Deus pôs termo à sua existência, no entanto continuas a nomear o seu nome nos teus poemas...
CLP - É um tanto complicado responder a essa questão, tanto mais que estamos num contexto poético. Vejamos: muito antes de eu, Carlos Lopes Pires (poeta), nomear o Seu nome, na verdade já a Ele me dirigia. Por exemplo, um poema do "Livro dos Salmos" (publicado há cerca de 20 anos) começa assim: "Desde há dias que te espero/e não sei de onde vens nem como és." Por outro lado, creio que o que é verdadeiramente relevante no ser humano, é "olhar para cima". O sentimento de que a sua existência é impalpável, irredutível. Um sentimento de transcendência. De que alguma coisa lhe escapa nesse sentimento de existir. O aparecimento da palavra "Deus", ou seus equivalentes na minha poesia, é relativamente recente. Creio que aconteceu sobretudo a partir de um livro, dedicado ao meu pai, chamado "As Estações de Deus" (2002). No entanto, verdadeiramente, sempre fui um poeta religioso. Resumindo: a existência ou não existência de Deus é perfeitamente irrelevante para o meu sentimento de transcendência que deriva do sentimento de que existir é um mistério. É verdade, Deus fez-se deixar de existir porque se tornou talvez um pássaro. Estamos por nossa conta e sem certezas. Agora vive no meu quintal: "ontem encontrei Deus / a rezar/ junto ao nosso pessegueiro / por que rezas / perguntei / para merecer-me".

JP - Como encaras a função do poeta? Tens poetas preferidos?

CLP – Como há uma grande diversidade de poesias e de poetas, julgo que poderá ser difícil dar uma resposta muito concreta. No entanto, enquanto leitor, o que posso dizer é que, relativamente ao tipo de poesia que aprecio, me parece que esta tem pelo menos uma função: contribuir para que os humanos se tornem melhores pessoas. Neste sentido, desde sempre que vejo a poesia como tendo uma missão salvífica. Enquanto poeta, vejo o acto de escrever poesia muito próximo da oração. Ainda no que me respeita, vejo na poesia uma busca de despojamento e, também por isso, creio que a poesia em geral busca a ignorância. TS Eliot, Paul Celan são, sem dúvida para mim, dois dos grandes poetas de sempre. Também creio que Albano Martins é o mais relevante poeta português vivo.

JP - Achas que a arte é bem tratada em Portugal?

CLP – Jamais seria justo dando opiniões sobre aquilo que não posso conhecer. Apenas conheço, pela rama, o caso da poesia. Sobre esta, é necessário ter-se distanciação e considerar o que a História nos ensina: cada época tem os seus heróis e, frequentemente, estes não resistem à triagem do tempo. Também creio que os poetas só podem cumprir a sua missão (refiro-me, é claro, à poesia em que acredito) estando marginalizados, escrevendo fora do sistema dominante, divergindo. Por outras palavras: a poesia que conta será sempre minoritária.

JP - Tens planos futuros no campo da poesia?

CLP – Como me disse uma vez José Carlos González, um poeta escreve porque não tem outra alternativa. Estou totalmente de acordo. Tenho vários livros escritos, mas nenhuma vontade de publicar. Por ordem pela qual foram escritos posso nomear "Uma ferida", "Redondo azul", "Formigas e chuva", "Sou Deus e quero chorar" e "A minha poesia é uma ignorância" (este ainda não terminado). Deixo-te um poema deste último livro:

hoje encontrei Deus
pousado na nossa nespereira

ele não faz milagres
ou coisas difíceis de acontecer

ele não ordena chuva
e chove

nem que as árvores tenham sombra
ou que a luz brilhe na água

por vezes
encho o meu coração
de mais e mais ignorância

e vou então junto dele
e digo-lhe ao ouvido sei que és tu


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