Nasceu em Lisboa e há vários anos que reside em Leiria. Pedro Jordão (professor, tradutor, escritor, compositor e instrutor de Yoga), figura única na Música Portuguesa, é um autor actualmente desconhecido do grande público.
Teve bastante visibilidade a partir dos Festivais RTP da Canção de 1967 e 1968. Escreveu canções para os principais intérpretes daquele tempo, destacando-se Tonicha, Mirene Cardinalli, Nicolau Breyner, António Calvário, Simone de Oliveira e João Maria Tudella. Com este último compôs o belíssimo e revolucionário álbum “Tudella Canta Música de Pedro Jordão”, editado em 1969. Em Dezembro de 1974 começa a escrever os arranjos da sua própria música e reparte o seu tempo pela composição de uma série de peças sinfónicas. Em 1976 editou o único LP com a sua voz: “Eu Já Voei! Como possivelmente vocês nunca voaram…”, em cuja contracapa agradece e dedica o trabalho “a todos aqueles que já compreenderam que a verdadeira revolução social começa dentro de cada homem…”. Na verdade, essa específica revolução já ele iniciara em 1967, neste país em que a Censura pontificava, quando musicou um poema de Rui Malhôa, “Balada da Traição do Mar”. Essa canção foi seleccionada para o Festival da Canção, sendo na verdade um claro manifesto contra a ditadura. Mas foi cantada em directo e terá passado despercebida aos censores.
Pedro Jordão musicou, entre outros, poemas de Eugénio de Andrade, Manuel Lima Brummon, Reinaldo Ferreira, Fernando Pessoa, Mário Gonçalves, Rui Malhôa, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta e dele próprio.

João Pires - Como é para ti recordar todo este manancial de experiência e saber, desde antes do 25 de Abril até aos dias de hoje?
Pedro Jordão - Vai longe o tempo das laranjas doces que sucedeu ao 25 de Abril. Bastava nessa altura reduzir a escrito a verborreia revolucionária politicamente dominante e cantarolá-la com meia dúzia de chavões que entravam facilmente pelo ouvido esquerdo e facilmente saíam pelo direito sem deixar resíduo. Independente e desalinhado que sempre fui, depois do 25 de Abril tal como no 24, a marginalização teria de ser, e foi, o castigo lógico da minha zombeteira teimosia (leia-se inépcia político - musical). Por isso fui deambulando pela música em jeito diletante, sem apoios de ninguém, alternando a composição dita ligeira com a composição dita clássica. Fui desenvolvendo entretanto um tipo de música “sui generis”, que casava as influências clássicas absorvidas na meninice com o jazz e a música dita ligeira. Desse casamento se gerou, nas versões cantadas, um tipo de composição de tendência acentuadamente dramática, que pretendia sensibilizar o ouvinte para o conteúdo semântico dos poemas. Em termos de música, pode dizer-se que tenho passeado pela vida como quem passeia num pomar de laranjas amargas, renunciando ao prazer e ao proveito duma laranjinha sumarenta cheia de frutose. De vez em quando sento-me na terra e cerro os olhos para esquadrinhar a vida; ou então escrevinho marginalidades alternativas. Há meia dúzia de anos acrescentei uma outra alternativa quando reavivei o velho gosto pela fotografia. 

JP - Qual o teu instrumento musical de eleição?
PJ - Piano, desde sempre, mas toco qualquer instrumento de teclas ou palhetas.

JP - Bob Dylan disse: “Arte é o movimento perpétuo da ilusão. O seu maior propósito é inspirar. O que pode fazer mais um artista, senão inspirar alguém?”. Concordas?
PJ - “Movimento perpétuo da ilusão” é o modo de existência do mundo particular em que vive cada ser vivo, homem incluído. Chamar “arte” a esse movimento – porventura sinónimo do devir universal – parece-me uma ideia peregrina... E que o artista mais não possa fazer que inspirar alguém, será apenas a opinião de Dylan. A minha não coincide. Mas o melhor será talvez abdicarmos deste tipo de opiniões que pretendem retratar em duas penadas uma realidade que, mesmo sendo ilusória, apresenta uma infinita variedade de aspectos.

JP - Estás a trabalhar em algum projecto musical actualmente?
PJ - Sim, estou empenhadíssimo a trabalhar sobre uma série numerosa de poemas do Carlos Lopes Pires. Considero a poesia dele fascinante, tanto mais quanto mais se aproxima da simplicidade, que é também uma velha aspiração minha.

 
 
Pedro Jordão: "A verdadeira revolução começa dentro de cada homem..."
Nasceu em Lisboa e há vários anos que reside em Leiria. Pedro Jordão (professor, tradutor, escritor, compositor e instrutor de Yoga), figura única na Música Portuguesa, é um autor actualmente desconhecido do grande público. 
Teve bastante visibilidade a partir dos Festivais RTP da Canção de 1967 e 1968. Escreveu canções para os principais intérpretes daquele tempo, destacando-se Tonicha, Mirene Cardinalli, Nicolau Breyner, António Calvário, Simone de Oliveira e João Maria Tudella. Com este último compôs o belíssimo e revolucionário álbum “Tudella Canta Música de Pedro Jordão”, editado em 1969. Em Dezembro de 1974 começa a escrever os arranjos da sua própria música e reparte o seu tempo pela composição de uma série de peças sinfónicas. Em 1976 editou o único LP com a sua voz: “Eu Já Voei! Como possivelmente vocês nunca voaram…”, em cuja contracapa agradece e dedica o trabalho “a todos aqueles que já compreenderam que a verdadeira revolução social começa dentro de cada homem…”. Na verdade, essa específica revolução já ele iniciara em 1967, neste país em que a Censura pontificava, quando musicou um poema de Rui Malhôa, “Balada da Traição do Mar”. Essa canção foi seleccionada para o Festival da Canção, sendo na verdade um claro manifesto contra a ditadura. Mas foi cantada em directo e terá passado despercebida aos censores. 
Pedro Jordão musicou, entre outros, poemas de Eugénio de Andrade, Manuel Lima Brummon, Reinaldo Ferreira, Fernando Pessoa, Mário Gonçalves, Rui Malhôa, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta e dele próprio. 
 
 
João Pires - Como é para ti recordar todo este manancial de experiência e saber, desde antes do 25 de Abril até aos dias de hoje?
Pedro Jordão - Vai longe o tempo das laranjas doces que sucedeu ao 25 de Abril. Bastava nessa altura reduzir a escrito a verborreia revolucionária politicamente dominante e cantarolá-la com meia dúzia de chavões que entravam facilmente pelo ouvido esquerdo e facilmente saíam pelo direito sem deixar resíduo. Independente e desalinhado que sempre fui, depois do 25 de Abril tal como no 24, a marginalização teria de ser, e foi, o castigo lógico da minha zombeteira teimosia (leia-se inépcia político - musical). Por isso fui deambulando pela música em jeito diletante, sem apoios de ninguém, alternando a composição dita ligeira com a composição dita clássica. Fui desenvolvendo entretanto um tipo de música “sui generis”, que casava as influências clássicas absorvidas na meninice com o jazz e a música dita ligeira. Desse casamento se gerou, nas versões cantadas, um tipo de composição de tendência acentuadamente dramática, que pretendia sensibilizar o ouvinte para o conteúdo semântico dos poemas. Em termos de música, pode dizer-se que tenho passeado pela vida como quem passeia num pomar de laranjas amargas, renunciando ao prazer e ao proveito duma laranjinha sumarenta cheia de frutose. De vez em quando sento-me na terra e cerro os olhos para esquadrinhar a vida; ou então escrevinho marginalidades alternativas. Há meia dúzia de anos acrescentei uma outra alternativa quando reavivei o velho gosto pela fotografia. 
JP - Qual o teu instrumento musical de eleição?
PJ - Piano, desde sempre, mas toco qualquer instrumento de teclas ou palhetas.
JP - Bob Dylan disse: “Arte é o movimento perpétuo da ilusão. O seu maior propósito é inspirar. O que pode fazer mais um artista, senão inspirar alguém?”. Concordas?
PJ - “Movimento perpétuo da ilusão” é o modo de existência do mundo particular em que vive cada ser vivo, homem incluído. Chamar “arte” a esse movimento – porventura sinónimo do devir universal – parece-me uma ideia peregrina... E que o artista mais não possa fazer que inspirar alguém, será apenas a opinião de Dylan. A minha não coincide. Mas o melhor será talvez abdicarmos deste tipo de opiniões que pretendem retratar em duas penadas uma realidade que, mesmo sendo ilusória, apresenta uma infinita variedade de aspectos.
JP - Estás a trabalhar em algum projecto musical actualmente?
PJ - Sim, estou empenhadíssimo a trabalhar sobre uma série numerosa de poemas do Carlos Lopes Pires. Considero a poesia dele fascinante, tanto mais quanto mais se aproxima da simplicidade, que é também uma velha aspiração minha.
 

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