João Pires - Nos teus trabalhos utilizas a tinta, a água, objectos materiais e ainda o ser humano...
Nádia Duvall - A tinta, a água, os objectos, os diversos materiais e o corpo são médiuns para expressar o que sinto e o que penso. Para mim, são médiuns como qualquer outros. Obviamente que qualquer coisa que use, tem uma razão muito especifica para ser usada. E é por isso que nunca uso os mesmo suportes!
Os objectos que uso são mnemónicos, que são materiais através da qual a sua plasticidade transmite sensações, por exemplo: o vidro é um material frio e quando é usado é nesse sentido (frio e cortante), a luz é também importante como componente da obra (se é fria, quente, com cores...) entre outros. A água e as piscinas são usadas num sentido conceptual e metafórico. As tintas são “Peles”, as piscinas “Útero” e o meu corpo o de uma Grande - Mãe, o da mulher - oculta, mãe - d’ água e  MULHER - DIVINA. No útero, detenho o poder de criar e destruir; recriar a partir da destruição e contaminar objectos vulgares. Este “útero” é o palco de amor e terror, a eterna possibilidade de Ecdysis.

JP - A pele inerente ao nascimento e desenvolvimento de todos os seres, está presente e é peça central na tua obra artística. A pele, para esconder ou libertar? 
ND- Existe alguma pele permanente? Toda a pele se esconde e se liberta. Ora se liberta para se esconder, ora se esconde para se libertar. A pele que trabalho é uma Pele que se encontra entre o Inconsciente e o Consciente. Nesse estranho lugar que é esse “entre” os conteúdos se expõem e se libertam (numa dança com o espírito) transformando-se nas obras, “coisas palpáveis” que o fruidor consegue “ver”. Mas tudo é muito mais complexo, porque estamos a falar ora da arquitectura da mente ora da ambiguidade inominável que é a Alma e a Fé! Sintetizar o Ser e estilizá-lo a uma frase “teórica” é quase um sacrilégio.
Dizes que “a pele é inerente ao nascimento” mas também o é à morte! Vida e morte comungam na minha obra e celebro-as! Co-existem sem dúvida e, por isso, em algumas peças pode ser constrangedor olhar para elas, pois, sentimos uma incontrolável ternura ou terror. E consequentemente a nossa face distorce quase numa bizarra paralisia. Quando o homem se depara com a possibilidade da morte é como sentir o espírito a embater na carne.
O mundo interior é sugado atrozmente e regurgitado para o exterior materializando-se em formas disformes e perturbadoras. Assim é a minha obra e quem a observa.

JP - A certa altura dizes: “... A minha mente queda-se de exaustão e os meus olhos rodopiam nas realidades virtuais da minha existência... A busca (confesso: mais ou menos absurda) do sentido e do belo, onde o horrível está sempre presente.”. Falas da estética determinada pela sociedade?
ND - Nada de estética determinada pela sociedade. O belo e o horrível co-existem com a pele porque eles são a minha Pele. É a Pele que deixa (ou não) transparecer esse dilema entre ambos. Quando observamos uma obra de Goya, sentimos esse confuso dilema através das figuras sinuosas, rostos e corpos grosseiros, expressões de rejubilo e/ou morte. Sentimos repulsa e um fervoroso fascínio por todo aquele horror e beleza. Essa dicotomia interessa-me porque, sendo todo o meu trabalho auto-biográfico, é de certa forma “confortável” navegar em mares de metáforas e sensações. Eu sou o resultado de uma sociedade e, pelo mesma linha de pensamento, a Pele é o resultado directo dela. 

JP - Quais são as tuas principais influências no mundo da arte?
ND - Artes Visuais: Rui Chafes, Bruce Nauman, Ana Mendieta, Frida Khalo, Louise Bourgeois, Jackson Pollock, Yves Klein e Mark Rothko. Cinema: Bergman, Béla Tarr e Cronenberg. Literatura: Frankenstein (Mary Shelley), Metamorfose (Kafka), O Silêncio dos Inocentes (Thomas Harris), O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), Dr. Jekyll e Mr. Hyde (Louis Stevenson) e ainda Simone Veil, Sylvia Plathe, Georges Bataille. Outras influências: Psicanálise e Filosofia.


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