beija mao d miguel

Após a morte de D. João VI, a regência de Portugal foi confiada à Infanta Isabel que nomeou D. Pedro, então Imperador do Brasil, como sucessor. Em 1826, D. Pedro torna-se Rei de Portugal como D. Pedro IV, mas, como a constituição brasileira de 1824 impedia que governasse ambos os países, um mês depois abdicou da coroa portuguesa na filha Maria da Glória, uma menina de sete anos, aguardando-se que esta atingisse a idade necessária para casar com seu tio D. Miguel.

Em Abril de 1826, como parte do acordo de sucessão, D. Pedro reviu a Constituição de 1822, estabelecendo a Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa (de 1826), e retornou ao Brasil deixando o trono a Maria da Glória e confiando a regência a D. Miguel. Este, exilado após ter liderado duas revoltas contra o pai – a Vilafrancada e a Abrilada – voltou do exílio, em Fevereiro de 1828, jurou a Carta Constitucional e assumiu a regência em nome da sobrinha.
Mas logo a seguir, em Março, D. Miguel, vendo o irmão pelas costas, contrariou o juramento e, em golpe palaciano, alterou o processo político de tendência liberalizante, regressando ao regime do poder absoluto do rei. Proclamou cortes gerais, com a reunião dos três estados (clero, nobreza e povo) e foi aclamado como rei absoluto. Só seria reconhecido pelo Vaticano e pelos Estados Unidos.
Em 1829, já com D. Miguel no trono, iniciou-se uma violenta acção repressiva sobre os liberais que se prolongou até meados de 1832. Muitos fugiram do país, outros foram presos e outros, ainda, foram condenados à morte. Alguns fugiram para o estrangeiro, sobretudo Inglaterra e França, países onde se organizou a resistência.
Houve revoltas liberais em vários pontos do país, mas só com o desembarque das tropas de D. Pedro no Mindelo, em 8 de Julho de 1832, e a entrada no Porto no dia 9, é que a tendência liberal começou a ganhar terreno.

Da violência ao beija-mão
De 1828 a 1832, o povo português passou um mau bocado com os trauliteiros de D. Miguel a assumirem uma violência inusitada sobre quem se manifestasse contra ou apenas se desconfiasse que era contra o “patriótico” D. Miguel.
Não admira que, para fugir às perseguições ou até mesmo por adesão à causa de D. Miguel, por muitos julgada como legítima, se usasse de subterfúgios para cair nas boas graças da “polícia” e dos “bufos”. Um dos estratagemas era felicitar pessoalmente o novo rei «pelo reconhecimento de Sua Majestade Católica» (o Papa), beijando «a Real Mão de Sua Majestade» e obtendo em troca, das mãos do monarca, «a Graça de poderem usar a medalha de ouro com a Sua Real Efígie, pendente em fita azul e escarlate».
É difícil imaginar o cortejo que se fez naqueles anos a Lisboa, ao Palácio de Queluz, ou até ao Real Palácio da Bemposta (vulgo Paço da Rainha, que foi sede da Sereníssima Casa do Infantado, Palácio de D. João VI e onde está actualmente instalada a Academia da Marinha), próximo do Campo Mártires da Pátria, para o beija-mão a Sua Majestade. De todos os pontos de país, servidores do Estado, autarcas, altas e médias patentes militares, nobres, capitalistas, latifundiários, eclesiásticos e realistas em geral, se deslocaram ali, tentando obter, nas boas-graças do rei, o salvo-conduto para o sossego da sua vida ou para o “tachito” da praxe.
Temos algumas informações de gente que, em 1830, foi de Leiria a esse beija-mão, e até de pessoas das Cortes, o que ficou registado no “Diário do Governo”, que então se designava “Gazeta de Lisboa”. É o caso, por exemplo, do «Capitão Luís Henriques das Cortes», em 12 de Fevereiro, e do «Padre António da Costa e Sousa, do Lugar das Cortes, Termo de Leiria», em 30 de Março daquele ano.
Mas veja-se a seguir a transcrição completa da relação de “cortejadores” que naquelas duas datas foram cumprimentar o rei e obter a “milagrosa” medalha.

1. O Capitão Luís Henriques, das Cortes
«Lisboa, 12 de Fevereiro.
Em o dia 27 de Janeiro último, pela uma hora da tarde, foram admitidos à Augusta Presença d’El-Rei Nosso Senhor, no Real Paço de Queluz, António Joaquim Carreira Barreiros, Capitão-mor da Cidade de Leiria, e seu filho Joaquim Carreira Barreiros de Carvalho, Juiz do Crime do Bairro de Andaluz; como Procuradores das Câmaras da dita Cidade de Leiria, e das Vilas da Batalha e Alpedriz, para em nome das mesmas felicitaram a Sua Real Majestade polo reconhecimento de Sua Majestade Católica; e então o primeiro dos ditos procuradores dirigiu a Sua Real Majestade um pequeno discurso análogo ao objecto da sua comissão, o qual El-Rei Nosso Senhor Se dignou agradecer com as expressões da afabilidade e acolhimento, que tanto exalta e abrilhanta Sua Excelsa e Real Grandeza, e que tão natural e próprio é de Seu Régio e Magnânimo Coração; e neste mesmo tempo os ditos Procuradores obtiveram de Sua Real Majestade, a Graça de poderem usar da medalha de ouro com a Sua Real Efígie, pendente em fita azul e escarlate, as seguintes pessoas: o dito primeiro Procurador António Joaquim Carreira Barreiros, sua mulher, filhas e neto Frederico; o Corregedor da Comarca de Leiria, João Pequito de Andrade, sua mulher e seus filhos; o Provedor da dita Comarca de Leiria, José Ferreira de Azevedo, o Major José Gomes Henriques Gaio, e mais Vereadores e Oficiais da Câmara da mesma Cidade de Leiria; os Juízes e Vereadores das Câmaras das Vilas da Batalha e Alpedriz; o Tenente-Coronel Reformado Joaquim Carlos da Costa Guerra, Miguel Tavares da Brito e sua irmã D. Arcângela Isabel Tavares de Brito; António Carlos da Costa Guerra, José de Faria Gomes de Oliveira, D. Margarida Perpétua Vieira da Silva, D. Joaquina Guilhermina Vieira da Silva, D. Joana Emília da Silva e Sá e D. Jacinta Deroteia da Silva e Sá, Manuel Carlos Godinho, sua mulher e filho; Joaquim Manuel Pereira da Costa, sua mulher e filho; Justino António Rodrigues, Teodoro José Coelho do Vale, o Padre Pedro da Silva, o Capitão Luís Henriques das Cortes, José Joaquim de Andrade, sua mulher e filhos; o Major José Xavier Heitor de Andrade, o Capitão António Pedro Pequito de Andrade, e Maria Teresa de Matos do Gavião, D. Maria Vitória da Silva Castel-Branco, e D. Perpétua Felicidade da Silva Castel-Branco, de Alcafazes; o Prior do Real Convento da Batalha Fr. José Ferreira de Magalhães, e mais Religiosos actualmente residentes no dito Convento, que são o Padre Mestre Jubilado Fr. Francisco Henriques de Faria, o Padre Mestre Jubilado Fr. Manuel Jerónimo Garcia, o Padre Fr. João Manuel da Natividade, o Padre Fr. José Bernardino Pimentel, o Padre Fr. José de Nossa Senhora dos Mártires Rino, o Padre Fr. João de Santa Ana Crisóstomo, o Padre Fr. Lourenço do Rosário, o Padre Fr. Francisco Gomes, o Padre Fr. Manuel Machadinho, o Padre Fr. Domingos de Mesquita e o Padre Fr. Manuel da Piedade, o Tenente Coronel Reformado José Joaquim Leal Castelo Branco, sua mulher, filhos, cunhada e cunhados, da Vila d’ldanha-a-Nova; o Capitão António Pedro Vaz, o Padre João Henriques e seu irmão o Capitão Francisco Henriques, do lugar de Minde; Bernardo José Ribeiro, da Vila de Soure; Maria Bárbara, Joaquina Rita, Joaquim Ribeiro e José António, da Cidade de Leiria.»
“Gazeta de Lisboa”, n° 38, de 13 de Fevereiro de 1830, p. 151

2. O Padre António da Costa e Sousa, do Lugar das Cortes
«Lisboa, 3 de Abril.
El-Rei Nosso Senhor, dignando-Se atender à humilde súplica que no Real Palácio da Bemposta Lhe fez António Patrício Pinto Rodrigues, foi servido conceder a graça de poder usar da Medalha de ouro com a Sua Real Efígie, o Abade António Bernardo Gomes da Cunha, Cavaleiro da Ordem de Cristo; por cuja graça o Suplicante novamente beijou em nome do agraciado a Real e Benfeitora Mão do mesmo Real Senhor.
*
Tendo a honra de beijar a Real Mão de Sua Majestade, no dia 30 de Março de 1830, o Beneficiado António Ribeiro Ferrão alcançou do mesmo Real Senhor a Graça de poderem usar da Sua Real Efígie em Medalha de ouro, D. Ana Jacinta Heitor de Andrade, do Gavião; o Padre Aquilino Freire Teixeira de Queiroz, Fidalgo da Casa de Sua Majestade e Pároco de Nossa Senhora dos Prazeres de Aljubarrota; o Padre Luís João de Sousa, Cura da mesma Freguesia; Isidoro dos Santos, da Vila do Alcobaça, e sua mulher D. Ana Violante dos Prazeres; António José de Brito, da Cidade de Leiria; o Padre António da Costa e Sousa, do Lugar das Cortes, Termo de Leiria; o Irmão Bernardo de Jesus Maria, morador no Convento de S. Francisco de Leiria; Fr. Gaspar Vaía, Monge no Real Mosteiro de Alcobaça.»
“Gazeta de Lisboa”, n° 80, de 3 de Abril de 1830, p. 321

É provável e natural que outras pessoas da região tenham tido a mesma atitude, embora isso possa ter eventualmente escapado à nossa pesquisa, que não foi exaustiva. Mas o objectivo deste apontamento é apenas dar conta de uma situação peculiar em condições difíceis do país, há cerca de 200 anos, com as pessoas a acomodar-se às circunstâncias da melhor forma que podiam ou sabiam. E as de Leiria, e até as das Cortes, não eram diferentes. Portanto, independentemente de a lista poder ser maior, temos aqui o exemplo de que os cidadãos da nossa terra não viviam isolados e acompanhavam o andamento político do país. Falta saber se alguém nosso seguiu os liberais ou sofreu sevícias por os ter seguido.

Introdução e transcrição de Carlos Fernandes


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