E a conversa continuou no Serão de 9 de Julho, justamente pegando na deixa do serão anterior, com o tema “O homem é um animal que olha para cima”.
Depois das habituais conversas introdutórias sobre iniciativas culturais e livros apresentados na região, avançou-se num debate em que toda a gente participou.
Pedro Moniz enfatizou a componente religiosa com o poema “Olhar para cima”: «Olho p`ra cima e que vejo?/ O céu imenso e sobejo…» Deus, para ele, é «Alfa e o Omega»: «Do tempo Senhor absoluto,/ O seu critério impoluto/ Rege todo o universo./ (...) Tomas conta de mim/ Como se fosse o único/ Homem na terra.»

Houve depois um momento musical com temas de Pedro Jordão e, a seguir, interveio Carlos Pires com o tema “O Chefe que está por detrás de tudo isto”, alegadamente com base em questões colocadas pelo filhote de 5 anos. Respiguemos: «Era uma vez um chefe, que está num lugar muito longe, tão longe, que para lá chegar temos de ir num avião a jacto. Este Chefe primeiro criou o Mundo a partir de nada-que-fazer, o que significa que entre as suas mãos e o que não havia, nada havia, a não ser nada-que-fazer. (...) Porém, gostava particularmente de jogos com quatro jogadores. (...) Então, quando lhe apetece jogar às cartas, é quando chama algumas pessoas cá de baixo. É quando elas morrem. (...) Também sei que existe um Anjo da Guarda que não serve para nada. Passa o tempo ao pé do Chefe, mas não faz nada. Nem sequer joga às cartas. (...) Vocês podem estar a pensar que quando eu for muito crescido vou querer ter um avião a jacto. Estão enganados. O que quero mesmo é fazer uma pergunta ao Chefe: por que não nos deixa ele em paz e joga às cartas sozinho, ou então com o Anjo da Guarda?»

Júlia Moniz diria: «Se aceito os reveses da vida, acalenta-me o facto de que tudo neste mundo é muito fugaz. E sou feliz ao pensar que um dia tudo isto acabará. 

Não sendo obcecada pela morte, contudo aceito-a como remédio santo para acabar com todo este mundo de ignorância em que tenho que viver.»

Clara Marques disse dois poemas: “Não és bom nem mau”, de Olav Bilac («Não és bom, nem és mau: és triste e humano.../ Vives ansiando...»), e “Grandeza do Homem”, de Ruy Belo («Somos a grande ilha do silêncio de deus/ Chovam as estações soprem os ventos/ jamais hão-de passar das margens.»).
Pedro Jordão fez uma dissertação longa: «Que significa olhar para cima? Provavelmente: aspirar a uma melhoria da sua própria condição, o que decerto inclui a eliminação do sofrimento e a conquista da felicidade – aquela coisa que escorrega das mãos como enguia – e da vida eterna, ou seja a eliminação da morte do corpo.» Concluiria: « Em suma: o Homem olha para cima, mas o que devia era olhar para dentro de si mesmo a fim de aprofundar o seu auto-conhecimento, a consciência daquilo que é na realidade.»

Maria Ludeña reflectiria no mesmo sentido: «Há quem olhe para cima para que um senhor com barba branca resolva os sarilhos em que se mete ou as incompetências da sua pessoa. A estes últimos, eu lhes diria que olhem melhor para dentro…» Ironizando, acrescentaria que os homens olham para cima, mas não as mulheres: «Se o homem olhasse para baixo, poderia ver que o chão está por limpar, e como isso não interessa, sempre é melhor olhar para cima…» E assobiar!

Celeste Alves, por sua vez, invocaria o nosso barro alado: «Todos nós somos feitos de barro, com os pés bem assentes na terra. É algo inerente à natureza humana. Mas, por outro lado, é também do consenso geral que em nós há uma centelha divina que nos impele na direcção do Belo e do Bom, formas superiores do espírito que se distendem no sentido da honestidade, da rectidão, da verdade e do amor, valores através dos quais o homem almeja a sua plena realização.»
Luís Vieira da Mota interrogou-se se seria bom ou mau o homem olhar para cima. E considerou mau, concluindo que «o Homem não deve olhar parar cima: deve olhar para a frente, para o chão que pisa e, principalmente, OLHAR PARA DENTRO DE SI.»
Mas foi a esposa deste, Isabel Barbosa, quem rematou: «Só se pode olhar para cima quando se olha para o lado!»


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