A sessão, na Biblioteca da Casa-Museu João Soares, nas Cortes, contou com a presença de três alunas do Ensino Secundário, de Leiria.

“Mediocridade e literatura ou como a ida à praia democratizou a cultura” – foi o tema dos Serões Literários das Cortes do passado dia 12 de Novembro. Entre os participantes estiveram três meninas estudantes em Leiria que quiseram ver como se faz actualmente uma tertúlia literária. E não se arrependeram porque o serão foi pródigo de discussão e de intervenções interessantes.

Depois da habitual ronda pelas actividades culturais da região e de uma olhadela pelos livros ultimamente produzidos entre nós, entrou-se no tema da noite com uma intervenção de Carlos Pires que citou algumas considerações de um pensador espanhol, Ortega y Gasset (Madrid, 1883-1955), em especial da sua obra “A rebelião das massas”, onde o autor, autêntico visionário, anteviu os problemas agudos que afectam a sociedade actual e as consequências mediocrizantes da globalização.
Entre outros, também Pedro Jordão deu a conhecer as suas reflexões sobre o tema: «A Mediocridade vai sendo o produto do nivelamento por baixo, o produto de uma criação pobre de espírito, uma criação incapaz de criar o novo. / Mas porquê nivelamento por baixo? Porque não temos capacidade para nivelar por cima – ainda lá não chegámos, nem sequer sabemos como é! Porque continuamos ainda a pensar que somos aquilo que pensamos, sem reparar que aquilo que pensamos varia com a rapidez do ponteiro dos segundos. Logo não tem uma existência real; porque não permanece, ou não permanece o tempo suficiente para ser reconhecido como o eu pensante. E assim vamos perpetuando o nosso falso eu, vamos perpetuando a nossa Mediocridade e a dos outros, embalados numa distracção permanente que não nos permite darmos conta da mudança que vamos sofrendo.»
Clara Marques citou depois João Gonçalves , do seu livro “Contra a literatice e afins” (2011): «Enquanto leitor, parto do princípio elementar de que a literatura não é democrática e que muito do que se lança por aí em seu nome é, visto a partir dela, uma falácia. Uma coisa é, por exemplo, versejar; outra coisa bem diferente é escrever poesia. Uma tirada bem espremida, agridoce ou em devaneio deliquescente, sob a forma de poema ou romance, não faz respectivamente um poema ou um romance. Tomar a literatura por um punhado de bens arrebatados ao supermercado, juntamente com o óleo das batatas, a margarina e o papel higiénico das férias é gesto tão frívolo quanto desprezível. A expressão “ler nas férias” quase, que pressupõe que a leitura não é uma actividade séria, compenetrada e exigente, da qual, adequadamente, não é suposto “tirar férias”. Para a proliferação das más ideias em torno da literatura muito contribuíram – e contribuem – aqueles que nos media a divulgam, com honrosas excepções. Neles vigora o comadrio e, mais repelente que o compadrio, a complacência com o pior do que não presta. É fácil “fazer” passar um escriba ou um analfabeto simples ou funcional por um “autor”. Hoje em dia, alguém é “autor” porque apareceu na televisão ou conheceu as pessoas “certas”. Basta andar nos transportes públicos para perceber o que é que se lê quando eventualmente se lê um livro.»
O mesmo crítico que declara sem titubear: «Jamais aplicarei o acordo ortográfico que impõe a “lulização” do português. Os prosélitos e os literatos do regime tratam da questão como tratam, aliás, de tudo. Como os pequeninos donos das letras de trazer por casa que são. É que um intelectual que fala em uniformização da língua não é um intelectual. É uma besta.»
A encerrar a sessão, Luís Vieira da Mota ensaiou a decomposição da palavra “mediocridade”, separando os seus três “étimos”: Medi; Ocre; Idade. E, uma vez escalpelizada a palavra, mostrou, ou referiu, «alguns exemplos, pelo menos dois, onde se prova como a democratização através da praia produziu obras medíocres. Primeiro exemplo: “Milena, a da praia”, canção esquecida e ignorada, logo medíocre. O seu autor jamais receberia um Nobel. Porém o segundo exemplo é bem pior e não tão esquecido: “O mar enrola na areia”. Tão ruim, tão medíocre, que apela à violência doméstica. Atente-se nos seguintes versos: Até o mar é casado/ Até o mar tem mulher/ É casado com a areia/ Bate nela quando quer.” Facilmente deduzível o conselho implícito.»


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