Por impossibilidade de usar a Casa-Museu, os Serões Literários de 14 de Janeiro último realizaram-se numa das salas do edifício da Junta de Freguesia das Cortes.
O tema proposto era uma questão complexa: “O que é a vida?”Antes, porém, falou-se de livros ultimamente editados na região e das iniciativas culturais agendadas para Janeiro. E terminou com um simpático doce, que foi um mimo de Clara Paulo, aniversariante de há poucos dias.
A sessão foi muito bem participada e quase toda a gente trazia a sua intervenção preparada. Sentiu-se que o assunto proposto tinha despertado muito interesse. Não será fácil resumir o conteúdo das intervenções.
Zaida Nunes respondeu com perguntas: «O que é a vida? – Nascer, crescer, amar, morrer? Ou, e também, a procura da paz e felicidade interiores? Interrogo-me todos os dias da minha vida. E irei continuar a interrogar-me. Até que a morte acabe com o que de mim é físico. Talvez, então, eu saiba responder à pergunta.»
Júlia Moniz concebe-a como movimento: «A vida é um movimento constante de todos os seres indissociável do amor, sonho, sofrimento e morte./ A vida é o frio cortante, que faz cair as últimas folhas das árvores, que foram verdejantes e que agora, soltas, se rebolam no ar gelado e que vão morrer para no princípio da Primavera serem berço de outros seres.»
Fernando Brites reconheceria: «A vida que conheço não se compadece com uma revisitação do baú das recordações, embora delas careça para alimentar a saudade e ao mesmo tempo sirva de ampla reflexão, na busca daquilo que eu chamaria a importância das coisas simples da vida vivida, transmitindo aos vindouros a importância de aprender a vivê-la, recreá-la e preenchê-la com qualidade e intensidade, sem jamais abdicar da sensibilidade, do conhecimento, da observação, da leitura e da pesquisa e chegar ao horizonte dos dias com aquela sensação extraordinária de ter sabido viver, vivendo intensamente cada momento como se fosse o último, não vegetando simplesmente, vogando ao sabor deveras amargo de uma breve e anónima passagem, sem ter gozado a vida na plenitude.»
Carlos Pires deu também voz ao seu “alter ego” e terminaria com a “Teoria do Pablo sobre a vida”: «Há uns tempos o Pablo explicou-me que não sabe o que é a vida, mas que lhe parece ser algo assim como uma espécie de emprego em que algumas pessoas se fartam de trabalhar e outras deixam simplesmente andar a coisa até serem despedidas. A morte, o que quer que seja, é um despedimento. E a vida, realmente, é um emprego muito esquisito, já que muita gente não faz ideia onde fica esse seu emprego nem que ocupação lá tem. Há quem viva à espera que o emprego apareça sem dar conta que este já chegou. E quando finalmente dá conta que está empregado é quando é despedido. Tal como há empregos melhores e piores, também há vidas melhores e piores, e mesmo vidas que apenas servem para manter as aparências até que chegue o despedimento. Também há pessoas que estão nos empregos e nunca chegam a compreender em que realmente estes consistem.» (...) « Eu já tive a idade do Pablo, mas nunca tive qualquer teoria sobre a vida. A uma certa altura, a poesia fez-me entender que uma coisa em que a vida consiste é aprender a morrer, que é como quem diz, preparar-se para o desemprego.» E em jeito de conclusão: «A vida tem um verbo, que descreve a acção da sua realização. E por isso viver é como abraçar-me em alguém.»
Pedro Jordão concluiu não encontrar a resposta: «Ocorreu-me então que a vida não é privilégio exclusivo dos humanos, se é que a vida é privilégio e não será preferível estar morto. Então e se.../ E se eu entrevistasse alguns animais? Foi o que fiz...» Mas os animais o que queriam era... tratar da vida, isto é, comer. Decidiu então falar com uma estatuazinha da Senhora da Fátima, que lhe disse: «Tu não precisas de saber o que é a vida, tu só precisas de viver!»
Celeste Alves citou João de Deus: « A vida é o dia de hoje,/ A vida é ai que mal soa,/ A vida é sombra que foge,/ A vida é nuvem que voa.»
Luís da Mota contou a história de um rapazinho que respondeu torto aos pais, descontente com a «boa merda de vida” que lhe deram: « E foi-se embora. Não com a intenção de correr mundo em busca daquilo que todos diziam ser uma boa vida, mas subjugado ao peso da própria, com a cabeça entalada de um e outro lado, prensada, querendo e não conseguindo alcançar resposta para o enigma que o tolhia: a vida é uma dádiva ou uma condenação? Agradecer a vida ou preferir nunca ter saído do nada? Olhava em redor e gostava do que via. Mas a que preço! Fome, cansaço, doença, frio. «Não tivesses comido a maçã!» Riu-se da recordação bíblica aprendida na catequese. Recolheu-se a uma gruta, mastigou um fruto que colhera no bosque, reclinou a cabeça e adormeceu./ Acordou tranquilo, decidido a não se preocupar mais com aquilo da vida. Examinou a gruta onde se abrigara e considerou-a muito satisfatória como abrigo. Explorou o bosque que a rodeava e contentou-se com os alimentos possíveis de colher. Se é necessário trabalhar para comer, quanto mais frugal a mesa, mais leve será o trabalho. Então decidiu: «vou ficar por aqui até que me esqueça de mim.»/ Quando conseguiu esse esquecimento de si, soube que resolvera o enigma.»
Paulo Costa e Maria Ludeña leram poemas alusivos ao tema. E Clara Marques seria assertiva: « O que é a vida? – Misto de tragédia e comédia./ Um livro escrito a várias mãos/ Num longo e profundo silêncio,/ Deixando que todos adivinhem o seu fim.»
António Nunes tenta responder com o “non sense”: «A morte é o sentido da nossa vida. Uma ideia chocante, perturbadora, mas que pode definir muito bem as nossas ações de vida. Que outro motivo mais forte poderia justificar tudo o que fazemos nesta vida?»
Clara Paulo topa com uma incógnita: «A vida é esta corrida,/ Sem meta e sem partida.../ A vida é esta incógnita sem fim,/ Que vive em ti e em mim...»
Noémia, por sua vez, leu o “Hino à Vida”, de Madre Teresa de Calcutá, que começa assim: «A vida é uma oportunidade: agarra-a.»
Aliás, Pedro Moniz rematara logo no início: «A vida é o que quiseres», pois se «a vida é tua»! Agarra-a, pois!
Naturalmente que muitas observações ficam por transcrever e outras intervenções por referir. O que aqui fica é uma pálida ideia de uma conversa alargada de duas horas. Mas foi muito importante enquanto pretexto para reflexão.

 


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