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"Que livros lerá o Pai Natal?", foi o mote do Serão de Dezembro.

Com um Serão episodicamente passado no terceiro sábado de Dezembro, dia 16, a agenda decorreu como nos mais serões, iniciando-se com a observação de livros ultimamente editados na região, com especial destaque para “A Rainha das Rosas”, um livro inclusivo, em multiformato que tem na sua origem o conceito de livro para todos, e reúne, num único volume, texto aumentado, braille, imagens em relevo para crianças cegas ou com baixa visão e pictogramas para crianças com incapacidade intelectual ou limitações de outra natureza. Este projeto, coordenado pelo Centro de Recursos para a Inclusão Digital do Politécnico de Leiria (CRID/IPLeiria), foi criado por 96 crianças, meninos e meninas entre os 3 e os 10 anos, da freguesia de Cortes (32 crianças dos Jardins de Infância de Reixida e de Famalicão e 64 alunos da Escola Básica de Reixida).

Foi depois altura de abordar iniciativas culturais para o resto do mês e início de 2018, após o que se entrou no tema da noite: “Que livros lerá o Pai Natal?” E, como prevíramos, a coisa deu origem a profundas investigações...
Zaida Nunes não esteve com meias medidas – «O Pai Natal não lê!». Mas vejam-se os argumentos: «O Pai Natal é não mais que uma invenção da Coca-Cola! Porquê e para quê pôr o Pai Natal a ler? E, se por um acaso, ou milagre, o Pai Natal virasse homem e começasse a ler, o Pai Natal morria! Não queria, por certo, continuar a fazer aquela figurinha de grande barriga, campainha na mão e riso estrondoso de assustar as pobres criancinhas, homens em crescimento e formação. Que livros lerá o Pai Natal? O Pai Natal não lê!» Luís Vieira da Mota foi da mesma opinião.

Quanto a Júlia Moniz, contou uma bela história: que estava numa biblioteca e que viu um menino a espreitar à porta que lhe disse: «Andas para aqui ansiosa para ver se encontras os livros que o Pai Natal lerá. Tenho compaixão de ti. A tua mente sempre a questionar, sempre a questionar não te deixa ver o mais simples, o essencial, que só o coração vê e entende.» E ela perguntou-lhe: «És o Pai Natal transformado no Menino Jesus que, quando eu era criança, descia pela chaminé à meia noite, para pôr no meu sapatinho guloseimas: rebuçados, umas bolachas, chapeuzinhos de chocolate coloridos , línguas de gato, conforme...?» E o menino respondeu: «Eu sou o Pai Natal ou o Menino Jesus, a força universal do Bem que existiu, existe e existirá até ao fim dos tempos. Eu nunca li nenhum livro destes nem quaisquer outros, porque eu sou o Conhecimento Pleno que inspiro todos os escritores e homens da ciência que fazem evoluir o mundo, onde terás que viver até Eu determinar.»

António Nunes também relata um encontro, mas com Pai Natal: «Diz que para além de Pai Natal também é músico. Compositor de duas ou três notas, daquelas que entram no ouvido mais duro que se possa imaginar. Pimba, com certeza! (...) Pergunto-lhe que livro é que está a ler. O meu ar deve-lhe parecer zombeteiro e ele reage franzindo o sobrolho, desconfiado. De desconfiado passa a zangado. Tentando apaziguar os ânimos adianto que, por acaso, até ando a ler o último romance de António Lobo Antunes. Olha para mim com os seus olhos azuis nórdicos, olhar inquisidor. Digo-lhe o título do livro: “Até que as pedras se tornem tão leves como a água”. Levanto-me em bicos de pés, que o figurante tem um trenó puxado por várias renas e está num plano superior. Ou julga-se que está. É de propósito que estaca e me provoca. Na minha reação dou uma cabeçada numa viga do sótão. Até vi estrelas, talvez as que lhe faziam guarda de honra na noite fria…»

Pedro Jordão indicou que há dias deu de caras com o Pai Natal numa rua movimentada de Lisboa. E entrevistou-o. Acabou por deparar com um pobre diabo como qualquer cidadão que se preze: «Sugado e explorado como nós, cidadãos comuns, embora retribuído futebolisticamente em função do alto rendimento que produzia, nunca lhe passou pela cabeça acautelar o futuro numa conta bancária dessas dos paraísos fiscais. Gastava levianamente os subsídios que lhe atribuíam, sem pensar no dia de amanhã; não se coibia de almoçar quase todos os dias nos restaurantes de luxo do paraíso; e eram trenós de luxo com aquecimento automatizado, ar condicionado, computador de bordo com GPS, calculador digital da energia disponível (das renas), rédeas de cabedal de primeira, arreios para as renas com incrustações em ouro maciço, refeições opíparas, vinhos das colheitas mais famosas das mais requintadas proveniências, fatiotas de pai natal novas todos os anos, executadas pelo alfaiate do próprio S. Pedro e de alguns arcanjos...» Livros?
Pedro Moniz, por sua vez, admitiu que o Pai Natal lê: «Indubitavelmente, o mítico Pai Natal lerá o livro dos livros, a Bíblia, onde a essência do espírito natalício está plasmada. Como personificação da generosidade do Deus-Menino, o Pai Natal tem também vontade de conhecer as mais belas histórias relacionadas com esta quadra festiva. A título sugestivo, salienta-se o livro de Vasco Graça Moura “As Mais Belas Histórias Portuguesas de Natal” e “15 História de Natal”, da Verbo (coleção série 15).»

Carlos Pires, por causa das dúvidas, escreveu ao Pai Natal: «Achei por bem consultá-lo a si, directamente, solicitando-lhe o obséquio de me informar sobre o que anda a ler.» E a prova de que ele existe é que respondeu: «É com muito gosto que lhe respondo. Recentemente tentaram impingir-me livros de um padre que anda por aí escrever livritos, que mais parecem textos variando entre o catecismo e prédicas de missas católicas. (...) Neste Natal irei oferecer-lhe três livros chamados “O Principezinho”, de Saint Éxupéry; “Por que não sou cristão”, de Bertrand Russel; e “Os criadores”, de Daniel Boorstin. Depois da leitura destas obras espero que o homem deixe de escrever, para bem da Humanidade e dele próprio.» Indica depois que lhe fizeram chegar um manuscrito: «É esse manuscrito que ando a ler. Chama-se ele “O Grande Livro Có-Có da Sabedoria: a Vida Depois da Vida e Mesmo Antes Dela”. (...) Parece que foi escrito por Quatro Santos Monges que são Cinco. (...) Estou muito certo de que para o ano irei oferecer a cada pessoa, como prenda de Natal, este Santo Livro. (...)»
Carlos Fernandes encerrou o rol de investigações com um ar sério, como convém, chamando a atenção para o embuste hipercomercial que é o coiso-Natal, a partir do qual o que vale é vender. O único livro de que o coiso-Natal gosta é do livro de cheques. E como até já esses rareiam, virou-se para o digital – os cartões de crédito coisa-e-tal.
O encerramento foi feito em festa, com doces e bebidas que a Ana Cristina Luz quis oferecer a todos os convivas. Não sem antes mostrar os livros sobre Aristides de Sousa Mendes que constitui matéria para tese de mestrado.

 

 

 


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