De carácter não estritamente religioso foi aquela que se designou nas Cortes por Festa ou Festival da Amizade ou ainda o Dia da Amizade.

 

A ideia partiu das estruturas directivas da J.A.C. (Juventude Agrária Católica) da Diocese de Leiria e visava um Encontro Diocesano da juventude, depois designado Festival da Amizade Juvenil, cujo objectivo era levar «a todos os recantos da diocese os ecos duma alegria sã e duma pura amizade que mais aproxime os jovens e os comprometa na construção dum mundo novo».

Mas, antes do encontro diocesano, as diversas paróquias participantes organizavam-se segundo um modelo previamente definido pelas “Direcções Diocesanas”, pouco mais ou menos, e promoviam um encontro local, cada uma na sua terra e envolvendo as diversas localidades de cada freguesia. Embora muito jovens, lembramo-nos de pelo menos duas festas destas e da mobilização que elas suscitaram, até porque um dos jovens que desempenhava papel preponderante na estrutura diocesana (e nacional) era da freguesia das Cortes e esforçou-se para que a sua terra fosse modelar. Referimo-nos a Anacleto Vieira Marques, que era de Famalicão e que nos dá hoje, em apontamento aqui anexo, o seu testemunho sobre a importância e o objectivo destes encontros festivos.

Na circunstância, os jovens dos diversos lugares eram industriados a preparar determinado tipo de intervenção, fosse desportiva ou recreativa, fosse musical ou etnográfica. Depois, em dia aprazado, e na sequência de uma série de cerimónias religiosas, todos se apresentavam em palco numa tarde bem passada, sem outra coisa que não fosse a criatividade de cada grupo, a sua alegria e a sua boa disposição. Ficaram memoráveis, em particular porque representavam o que cada terra sabia fazer de melhor. Além disso, havia uma espécie de votação para seleccionar os grupos mais originais a fim de representar a freguesia a nível diocesano, pelo que todos se esforçavam por fazer bem. Anacleto Marques dizia-nos recentemente, a propósito destas iniciativas: «De facto, os Dias da Amizade foram momentos muito interessantes pela disponibilidade participativa, pela ingenuidade de muitas das realizações, pelas memórias que deixaram na vida de alguns.» A comissão organizadora, a nível da freguesia das Cortes, era composta por António Filipe Matias, José Bento, Anacleto Marques e Mário Ferreira (já falecido).

Que saibamos, a primeira Festa da Amizade realizada nas Cortes, neste âmbito, data de Junho de 1968. Não conseguimos a notícia de que se ia fazer ou dos preparativos nesse sentido. Mas obtivemos, pelo menos, a notícia de que se realizou e o respectivo apontamento de reportagem. Vieram publicados no semanário “A Voz do Domingo” (n.º 1838, de 23-6-1968) e são do seguinte teor:

 

 

Texto: Carlos Fernandes

Fotos: José Malhão


A propósito das Festas da Amizade

Ver, julgar e agir = melhor conhecimento do meio onde se está inserido e maior capacidade para transformar essa realidade com base nos valores da doutrina social da Igreja Católica e dos Direitos Humanos – eram estas as traves mestras do movimento JARC (Juventude Agrária e Rural Católica).

Na década de 60, este movimento atingiu talvez a expressão maior, cobrindo nessa altura todo o país. A JARC era composta por grupos de base, localizados nas paróquias, interligados entre si a nível diocesano, a nível nacional e a nível internacional através de representantes próprios. A JARC nacional tinha sede em Lisboa (da qual fui presidente por vários anos); o MIJARC (Movimento Internacional da Juventude Agrária e Rural Católica) tinha sede em Lovaina, Bélgica (de cujo secretariado fiz parte durante 4 anos).

A JARC organizava um conjunto diversificado de acções de formação, de campos de férias, retiros, intercâmbios diocesanos, nacionais e internacionais, tendo sempre em vista o aperfeiçoamento pessoal e o desenvolvimento do meio rural.

A nível local organizavam-se muitas actividades que visavam estimular os jovens a criarem os seus espaços de manifestação, a reflectirem sobre as situações que viviam, e a participarem de forma mais responsável na vida e na transformação da comunidade.

Em Abril de 1963, os movimentos juvenis católicos organizaram o “Grande Encontro de Juventude” que congregou em Lisboa mais de 50.000 jovens. Foi uma acção espectacular que viria a marcar as actividades do movimento JARC nos anos seguintes.

A sociedade portuguesa vivia imersa em profundas contradições e dificuldades.

Os movimentos de leigos procuravam aproveitar o “ar fresco” do Concílio Vaticano II para alargar os espaço de mudança, exercendo uma cada vez maior pressão sobre o regime político e sobre a própria Igreja: era necessário transformar a sociedade, ser agente de mudança e não apenas suporte de um regime político baseado no medo.

Não mais foi possível organizar jornadas como o Grande Encontro de Juventude, mas diversificaram-se as jornadas de carácter local.

É neste enquadramento que se realizam no fim da década de 60 os Dias da Amizade. A ideia base era pôr os jovens a olhar para o que se passava à sua volta,a analisar os acontecimentos, as perspectivas de vida, o mundo em geral e a colocar ao serviço das suas comunidades a capacidade criativa, irreverente e inovadora própria de juventude.

É preciso entender que estamos a falar de há 50 anos: o nível de desenvolvimento, as formas de comunicação existentes e os meios materiais disponíveis eram perfeitamente escassos. Quando penso nesse tempo, nas condições em que as pessoas viviam, no conhecimento que tinham do que se passava no mundo, nas perspectivas de vida que se apresentavam… tenho a nítida impressão de voltar quase à Idade Média.

Os Dias da Amizade eram organizados localmente pelo grupo da JAC; tinham por objectivo dinamizar a intervenção dos jovens na comunidade. Tudo servia (encontros de reflexão, teatro, música..), manifestações de qualquer natureza que tivessem a ver com festa, movimento das pessoas, consciência de comunidade.

Para além do grande divertimento participado que ficou na memória de muita gente, o resultado maior foi talvez o lento caminhar para uma sociedade mais democrática, mais participada, mais livre. Parece que isto ainda continua…

Anacleto Vieira Marques
Agosto 2016

 


Leia esta notícia completa na edição em papel do JORNAL DAS CORTES n.º346, de Setembro de 2016.


 


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