projeto padrinhos

“Escrevemos esta carta e esperamos que ela te encontre de boa saúde e disposição ao lado de toda a família”, é como começa a carta escrita por um menino de São Tomé e Príncipe para a sua madrinha portuguesa.

Aléx, de 11 anos, tem uma irmã gémea, a Aleksandra, mais quatro irmãos e duas irmãs. Gosta de vermelho e de jogar futebol, mas o grande sonho é um dia vir a ser médico.
Ele e a irmã gémea são dois dos quatro afilhados que Fernanda, de Casal dos Claros, tem nesse país. É graças ao “Projeto dos Padrinhos” que quase 100 portugueses apadrinham cerca de 150 amigos do Aléx ao longo dos últimos anos. Na lista de padrinhos constam até vários cortesenses que, todos os anos, perto do dia da criança e do dia de Natal enviam pequenos presentes que tanta falta fazem àqueles meninos.
Chinelos, roupas, livros, canetas, lápis, mochilas ou brinquedos, são alguns exemplos dos objetos que vão embrulhados juntamente com uma carta dirigida ao afilhado. No papel fala-se um pouco sobre a vida, os gostos de cada um, os sonhos que se têm para aquele país ou a força que transmitem para que cresçam bem e trabalhem muito. Uns meses depois, ao correio de cada português que participa neste projeto, chega um pedaço de papel a agradecer a oferta, um papel com relatos de histórias de vida impressionantes, sonhos por realizar, e pedidos de mais materiais ou dinheiro.
A ideia nasceu há 10 anos quando Laura, da Golpilheira, viajou até São Tomé e Príncipe e, ao ver tanta pobreza e miséria, decidiu ajudar os meninos de uma das escolas que visitou. Na altura começou por ser o “ Dinheiro para a Sopa”, em que as pessoas que queriam juntar-se à ideia doavam dinheiro num mês, uma vez por ano, que chegado ao país iria servir para comprar a sopa para alimentar as crianças. Fernanda também já tinha visitado esse país e foi em 2006, quando voltou a visitar o mesmo sítio, que aproveitou para fazer a entrega do “Dinheiro da Sopa”, começando assim a pertencer ao grupo.
Já mais tarde, com a alteração dos meninos para outra escola passaram a ser mais do dobro, e houve a necessidade de fazer alterações à ideia inicial: foi quando nasceu o projeto do apadrinhamento, também com a ajuda e coordenação a partir de lá, através da professora Júlia.
Por cada envio o padrinho, para além das prendas, dá também algum dinheiro para que sejam pagos os custos de envio e ainda os custos da resposta da criança. O preço por afilhado varia consoante o que seja comprado mas, em média, fica em 50€ por ano.
Quem já teve a oportunidade de presenciar o momento da entrega dos presentes garante que “é impressionante” e que “indescritível” a expressão de felicidade que as crianças fazem ao terem nas mãos coisas são simples como carrinhos pequenos de brincar ou um rebuçado. Já o momento de entrega de material sem destinatário é menos feliz por haver demasiada gente a tentar chegar desordenadamente e desrespeitosamente aos objetos.
Já no final do pequeno papel, é com “muitos abraços bem apertados e muitos beijinhos para todos” que Aléx se despede da madrinha Fernanda, pelo menos até ao próximo Natal.

 

“Associação Projeto Bordão”

projeto bordao
Pouco tempo depois de começar o projeto inicial, Laura e Fernanda já voltaram a visitar o país para onde andam a ser enviadas prendas para se certificarem de que tinham chegado ao local, para estarem mais um pouco com os seus afilhados e para levarem mais ofertas. Para lá foram levadas algumas centenas de quilos em materiais, como livros, materiais escolares, roupas, rebuçados, e uma máquina de costura de pedal. O objetivo era ensinar as meninas interessadas a fazer o que tinha sido a atividade da vida de Fernanda, costurar.
Foi sonho de querer mais e melhor e a ambição de ajudar aquele povo que fizeram nascer, pela força desta costureira, uma casa com três divisões em São Tomé: uma para as meninas aprenderem a costurar, outra para consultas de planeamento familiar e a última para servir de biblioteca. É, aliás, esta casa, da “Associação Projeto Bordão”, que é utilizada para a distribuição dos presentes de padrinhos.
O espaço foi inaugurado em 2010, já com duas máquinas de costura, mas já tinha sido visitada pela mentora da ideia e pelo filho em 2008, quando aproveitaram para deixar as mãos e os nomes marcados na parede da casa.
Atualmente a casa está um pouco parada mas espera-se que no próximo ano volte a ganhar vida pela mão da costureira e, quem sabe, do filho também. Até lá ainda há mais algum trabalho a ser desenvolvido.