Cristo, em nome de Deus e por via do Homem nasceu, contam as escrituras, num estábulo, quiçá, diz-se e celebra-se todos os anos nos presépios, na manjedoura dum estábulo. Sobre o seu décimo aniversário e que prendas terá recebido é assunto não referido nas páginas, sacras para alguns, para outros nem tanto. Mas, de qualquer modo, respeitadas por muitos. Por quase todos. Ora é extraordinário que não haja notícia desse evento nos evangelhos canónicos, nem nos apócrifos, nem sequer nos manuscritos do Mar Morto ou outros que tal. Não seria hábito dessa época festejar o dia e prendar os aniversariantes. Consta, contudo, que o Imperador de Roma… Ora aí está o rei de Roma, que já não há, mas que rumou a Madrid, diz a cantiga, e que por sinal, acaba de festejar o meio século, com reportagem muito familiarmente íntima, com caldinho de couves e tudo, não a ferver por via da língua sensível da Princesinha das Astúrias, tudo mostrado de modo a que parecesse uma refeição frugal, quase proletária, com limpeza e muito asseio, porém isenta de qualquer laivo de ostentação. E termina a reportagem com o rei, que poderia ser o nosso Filipe IV, a levar as crianças à escola, corrijo, ao colégio, sendo ele próprio o motorista. Dois pormenores curiosos nesta reportagem: a ausência de “camareiras” a servir à mesa e outro tanto quanto a motorista. Duas atitudes de louvar, se é que o dia-a-dia real é realmente sempre assim. Mostra a real preocupação do rei em não meter demasiado a mão no bolso dos contribuintes. Há presidentes em algumas repúblicas que não são tão cuidadosos nesse item. Mas nós somos eleitos, dirão os presidentes, e os reis não. È uma a favor deles. Todavia, a mostra da simplicidade real caiu, a meu ver, e não estarei isolado neste sentimento, quando a reportagem refere «consoante é tradição da família real, Filipe VI, com certeza além de outros “regalos”, no décimo “cumpli ani” da Princesa das Astúrias!, agraciou esta com a mais alta condecoração do reino, o “Tosão de Ouro”» Contudo, e talvez por questão de economia, em vez de realizar duas festas opíparas, uma para a filha e outra para si próprio, adiou a imposição do colar, do tal “Tosão de Ouro”, para a cerimónia oficial de celebração do seu meio século. Bem mais aninhos tem o seu parente, eles são todos parentes, o vetusto príncipe de Gales, que ainda não é rei. Também, por cá, o príncipe da Beira não o é, se é que alguma vez o será. Ora sabe-se que Filipe VI deixou de ser príncipe das Astúrias porque seu pai abdicou. Más histórias de família que a tanto o obrigaram ou pelo menos aconselharam. Coisas dele próprio e de certa infanta. Por razões inversas o tal de Gales ainda não acedeu ao trono: sua virtuosa mãe está de pedra e cal e, consta-se, não o considera suficientemente idóneo para assumir o leme da velha Albion. É muito difícil a qualquer mãe deixar de ver no homem a criança que lhe saiu do útero, ainda que lhe não tenha mamado na teta.

Voltando a Madrid, ao da Zarzuela. Acertado nome para um palácio real. Houve boas e belíssimas cantoras espanholas, como Sarita Montiel, que foram “rainhas” da zarzuela. O que, quanto a mim, destoou na simplicidade daquilo tudo, por isso com certeza apenas para o povinho ver, é a tal condecoração aos príncipes só porque façam dez anos. Ainda não provaram nada. Mesmo que seja a melhor aluna do seu colégio há muitos outros e outras, tão bons ou até melhores, nos demais colégios e institutos do reino. Só porque nasceu naquele berço e os outros na “manjedoura”? Quantos nasceram, nascem, nascerão e morrerão, com muito mais valor e mérito, sem jamais terem o seu valor reconhecido! Isto para não imaginar que possa nem sequer vir a ser rainha ou que possa ser uma rainha inapta. Ou ruim. Mas há monarquias assim: condecoram as crianças, desde que reais, ilibam as infantas, mesmo que culpadas, mas e prendem e mantêm presos os opositores só porque o são.

Monarquias e não só, convenhamos.


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