Muitas pessoas que viram ou ouviram Salvador Sobral no concerto “Juntos por Todos “, onde participaram 25 artistas, que rendeu a quantia de 1 milhão e 153 mil euros, entregue à União das Misericórdias ficaram escandalizadas com a frase de cariz irreverente do ganhador do Festival da Eurovisão da Canção 2017, “ Tenho a sensação de que qualquer coisa que eu faça vocês vão aplaudir. Se eu der um peido, quero ver o que é que vocês fazem.”

Com esta atirada para uma assembleia de cerca de catorze mil pessoas presentes, umas viram apenas o aspeto jocoso e hilariante do jovem músico. Riram e bateram palmas. Outras escandalizadas assobiaram.

Para mim, e para os que pensam como eu,as suas palavras tiveram uma dimensão muito maior, que talvez nem o seu autor visualizasse na ocasião em que as proferiu o seu grande alcance, porque ditadas pelo seu inconsciente no momento em que menos pensou, vieram à tona. E o que está dito, está dito e o que é escrito, está escrito!

Acontece muito com alguns escritores. Podem escrever uma simples frase que para a maioria dos leitores vulgares, o seu sentido é linear, é inequívoco, é o que está lá plasmado, não existe mais nenhuma interpretação.

Mas, naquela frase há uma virgula. Há um ponto de exclamação e umas reticências e o leitor experiente usando de toda a sua argúcia e perspicácia intelectual encadeia todo o raciocínio do escritor explanado nos periódos ou parágrafos que leu anteriormente e sabe descodificar entre linhas toda a mensagem que não se encontra explícita, como que por artes mágicas que ele próprio não sabe explicar. É missão do entrosamento, do emaranhamento inextrincável de milhões de neurónios do cérebro com o beneplácito da sua sensibilidade, que herdou de gerações que o antecederam burilada pela sua própria experiência de vida e conhecimentos adquiridos . Um dá ao texto uma interpretação muito singela, vem outro contextualiza as palavras na paisagem que está a ver no momento da leitura, e vem aqueloutro que mistura todas as palavras e conceitos e começando do zero e porque gosta de escrever, disserta sobre o tema que dará um livro que irá servir de tese do seu próprio doutoramento.

Para mim, as palavras de Salvador Sobral foram de profunda e acutilante crítica aos que o aplaudiram, aos que não sabem apreciar a boa música. Foi como o músico dissesse àquela grande plateia:
“Sejam exigentes! Na música ou em qualquer arte não é tudo bom. Aprendam música e saibam avaliar o que é mesmo talento”. De facto, músicos, escritores e outros artistas não estão sempre inspirados para conceberem obras primas.
Inadvertidamente, usou uma linguagem desrespeitadora para fazer pedagogia. Talvez a mensagem não passasse de outra forma. Eu não teria coragem de falar assim. Não bati palmas nem assobiei. Mas fez-me refletir!


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