A Comissão de Festas da Reixida organizou aquilo que acreditava ser uma tarde de convívio com o mote da apanha do porco. Limparam o terreno, compraram vários porcos e publicaram um cartaz. O cartaz tinha uma imagem da internet, um título sobre a atividade, uma frase que desafiava os mais corajosos a participar, a indicação de que esta seria a primeira vez que iam fazer isto e o local, junto à escola (onde aliás fazem quase todos os eventos). Nós, cortesenses, que conhecemos as gentes da Reixida, sabemos que a intenção era exclusivamente proporcionar uma tarde divertida e angariar fundos para a capela. Mas alguém não interpretou isto da mesma forma e decidiu denunciar o caso a uma associação de defesa dos animais, sem sequer se dirigir à organização primeiro.

 

Rapidamente, na internet, multiplicaram-se as ofensas à organização do evento. E falamos de ofensas de todo o género, gratuitas e… desnecessárias. Um autêntico julgamento na praça pública em que as redes sociais de hoje em dia se tornaram. Pessoas de todo o país destilaram ódio contra as pessoas que dizem “não respeitar os animais”, “serem vergonhosas”, “de terceiro mundo” ou “sem precedentes”. Envolveram a Junta, a Câmara e até a GNR, antes mesmo de falarem com quem estava organizar o evento. A organização, que há vários meses trabalha de forma voluntária para conseguir o melhor em prol da festa da padroeira da capela, cancelou o evento e pediu desculpas de forma humilde a todas as pessoas que se sentiram ofendidas com o evento. Mais: sentiram necessidade de salientar que não se “identificam com a violência contra os animais e pessoas, seja na forma física, seja na forma verbal”.
E é preciso pensar nisto.

(Por favor, evitem tirar ilações precipitadas e dizer que este texto é favor da apanha do porco ou contra os animais – é escusado).


A questão aqui não se prende com o porco nem tão pouco com o evento. Mas com a forma como tudo foi conduzido e o alarido que foi feito no lugar da conversa que deveria ter existido. E isto é geral. Não é só com o porco da Reixida. Até que ponto não estaremos a ficar extremistas na forma como avaliamos e julgamos tudo? Tornou-se assim tão difícil falar primeiro, na cara, com quem de direito em relação a algo que nos incomoda? E o julgamento em praça pública, não era também de épocas passadas? Como estamos nós a lidar com o mundo através das redes sociais?

Alguém pensou, por momentos, na influência que estas proporções podem ter em gentes que dedicam a vida a fazer voluntariado em prol da comunidade e do bem comum? Era bom pensarmos nisto. Até porque já são cada vez menos aqueles que dão tudo em troca de nada.


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