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É com uma simpatia quase tão deliciosa como as sobremesas que faz, que Idalina, a cozinheira das Fontes, fala timidamente sobre a vida que tem trilhado.

Trabalho, amor e dedicação ao que faz e um grande brilho nos olhos e o que transmite numa conversa informal.

 

“Criada com a Senhora de Lurdes”, quando era mais nova tinha “brincadeiras espectaculares” na eira da costa e no largo da capela e ia acompanhada de um terço à serra para levar o almoço ao pai. Idalina Pereira de Sousa Moreira, nascida a 12 de Março de 1952, viveu quase toda a vida nas Fontes, filha de Jorge Sousa e Maria Madalena Cunha e irmã de Madalena, Maria de Jesus e António.

Nesse tempo havia em casa bois, um carro de bois e até uma burra com a qual ia à feira de São Mamede vender panos, a mando da mãe.
O percurso escolar foi pequeno, mas suficiente para conhecer várias escolas. Fez o primeiro ano na escola da Reixida, no segundo ano a escola estava em obras e por isso teve aulas com a professora Teresinha numa casa da Amoreira, por baixo da capela, o terceiro ano foi feito na Praia da Vieira, uma vez que a família foi para lá viver durante um ano, mas o quarto já terminou novamente na Reixida.
Com 14 anos juntava-se à Odete, amiga de infância e conterrânea, arranjava comida e roupa num cesto que colocava à cabeça, e metia-se a pé a caminho do freixial para ter aulas de costura. Ia à segunda e voltava à sexta-feira, mas acabou por sair porque, apesar de "gostar de pegar na agulha de vez em quando como passatempo", nunca foi isso que a fascinou.
Regressou a casa dos pais e ajudou-os na agricultura até aos 17 anos, idade com que foi para uma fábrica de curtumes, na Reixida, onde trabalhou cerca de 20 anos, até a fábrica fechar. Trabalhava com a Alice numa prensa que dava “brilho” às peças, através de relevo com formas, e à frente estava Luzia Ferreira, com quem trabalhou anos, a quem tinha um grande carinho, e de quem sentiu um grande desgosto com a sua morte.
Com 15 anos já tinha ido a um seminário de reflexão onde absorveu tudo e, como nunca foi de estar parada, pouco depois começou a dar catequese. Apesar do pai na altura não ter gostado e ter, inclusive, dado-lhe castigos com medo que fosse para freira, aos 16 anos começou a ajudar na catequese, aos 20 fez o curso de iniciação de catequista e ainda hoje, aos 63, faz noitadas a desenhar, recortar, pesquisar e ler para melhorar a cada fim-de-semana as lições de catequese que dá aos seus meninos nas Cortes. É muito dedicada às crianças, acredita ter um dom especial e sente-se muito realizada com isso. “É um bichinho que está ca dentro e mexe comigo”, conclui sorridente.

 

Enfiada na
cozinha desde nova

Não gosta de estar parada e também os pratos, panelas e as conjugações de sabores mexem com Idalina. Aliás, sempre teve “tendência a refugiar-se mais na cozinha para ver e aprender”. Apenas com 16 anos fez o almoço para a família e dois padres, num dia de festa das Fontes, em que por tradição o pai oferecia o almoço, uma vez que a festa era feita por baixo da casa onde viviam. Lembra-se como se fosse ontem. “Salada Russa com filetes fritos e sopa de legumes”, preparados com a ajuda de uma prima e que mereceram o elogio dos párocos. Foi com a “D. Júlia do Martinho” que começou. “Aquilo que sou deve-se a ela”, adianta. Ajudava-a na cozinha e começou a ser sugerida para ir fazer os eventos quando a D. Júlia não podia ir. Trabalhou para restaurantes como a Matilde Noca e Morgatões na Boa Vista, onde via coisas diferentes que reproduzia em casa. Ainda guarda o primeiro livro de cozinha que recebeu, “A mulher na sala e na cozinha”, que deve ter perto de 50 anos, sem fotografias apelativas nem grandes letras e cores como os de hoje, mas que continua a ser um dos seus preferidos e alvo de consulta.
A cerca altura, como não estava empregada, foi convidada pelo professor Agostinho Ribeiro para cuidar da sua casa e da filha que estava prestes a nascer, a Maria Inês, e aceitou.
Entretanto a ASSISTE abriu e dedicou-se de corpo e alma a esse projecto. Durante cerca de dois anos foi cozinheira da associação, mas também relações públicas e benfeitora. “Fazia daquela casa, a minha casa”. Ajudou a casa a crescer e o que quer guardar são apenas as boas recordações dessa experiência.
Aos 49 anos tirou a carta de condução, na segunda-feira da festa de Nossa Senhora da Gaiola, depois de algumas tentativas falhadas na condução, que deixavam o instrutor Fernando mais doente que ela própria. “Sonhava muitas vezes que ia a conduzir” mas tinha medo de o fazer por causa do sistema nervoso. Aventurou-se, conseguiu, e para além de ter ganho mais autonomia, ganhou um grande amigo, um novo filho.
Durante 6 anos foi a cozinheira do restaurante a Pérola do Fetal, no Reguengo, onde criou grandes laços de amizade com a equipa e os patrões. Foi depois convidada pelo Moinho do Rouco para pertencer à equipa, onde esteve durante dois anos, até se reformar.
Para além de trabalhar gosta também de viajar. Conhecer sítios bonitos como os Açores, mas também lugares com simbolismo como Israel são “experiências únicas”. É Peixes e faz jus ao signo ao gostar imenso de água. Faz hidroginástica para se manter activa e relaxada e adora ouvir música, “apesar de não saber cantar nem nada”.
Estar rodeada de jovens dá-lhe mais vida e poder participar em actividades enche-lhe o coração, até porque defende que “o dinheiro não é tudo”. Por isso mesmo, na atarefada agenda ainda conseguiu encaixar, durante quatro anos, a participação no Pinhal das Artes e a colaboração com o Lar de Santa Isabel de Leiria.

 

A vida
dedicada aos outros

Junta-se a isso as dezenas de anos a cuidar da cozinha dos restaurantes das festas de verão dos lugares da freguesia com as tradicionais ementas e deliciosas sobremesas. E repete que “sem ter nada para cozinhar não tem como viver”. De há uns anos para cá juntou-se também à Conferência Nossa Senhora da Gaiola, da Sociedade de Conferências São Vicente de Paulo, onde expõe principalmente as necessidades de quem precisa de uma mão amiga no lugar das Fontes. “De pequenino é que se troce o pepino”, como se costuma dizer, e a educação da mãe foi fundamental na criação deste sentimento de entreajuda e preocupação para com o próximo. “Tão longe e tão perto”, como lamenta, é como por vezes as coisas más que menos imaginamos acontecem aqui tão perto de nós, como com os vizinhos ou amigos, e uma pessoa nem se apercebe, como foi um caso que a marcou para a vida, e que felizmente pôde ajudar. Ajudas valiosas e que marcam. “Querer é poder”, sem dúvida”, e Idalina faz tudo isto com gosto… a troco de nada. A troco de um enorme brilho e orgulho no olhar e um sentimento de realização pessoal.

 

O brilho que a
família lhe dá

A família é o pilar fundamental no meio de todos os afazeres. Casou em 1975 com Diamantino Gomes, com quem teve dois filhos, o Filipe que tem 37 anos e a Rita com 31. À família já se juntou também a Madalena, a neta dos seus olhos, que ajudou a criar e que é “muito engraçada”. É para todos eles que gosta de cozinhar, a quem recorre quando precisa de conselhos ou ajuda e com quem continua a manter tradições como a matança do porco ou a véspera de Natal na cozinha a fazer salgadinhos ou os famosos “coscorões da Idalina”.


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