ROSTOS

 

«São artes que estão a desaparecer e por isso orgulho-me de as poder
divulgar e ensinar», afirma Bruno Gonçalves, jovem cortesense restaurador.

Já andou de norte a sul do país, sem ter definido o dia seguinte, quando trabalhava para várias empresas do sector do restauro mas, apesar de detestar a monotonia, sentiu necessidade de voltar às raízes e construir qualquer coisa para o futuro. Amante das artes, literalmente de quase todos os tipos de arte, Bruno Reis Cordeiro Gonçalves, filho de António Cordeiro Gonçalves, das Fontes, e de Maria da Saudade Reis Gonçalves, nasceu a 19 de Fevereiro de 1982 e é da Amoreira.

Dedicar a vida ao restauro, especialmente ao restauro religioso, já lhe permitiu fazer de sítios como o Mosteiro da Batalha, o Palácio de Belém ou o Convento de Tomar, o seu escritório. Durante três anos percorreu o país para fazer trabalhos nessa área, pedidos por diversas empresas nacionais, e admite ter tido oportunidade de conhecer imensa gente que sabia muito sobre a arte, trabalhar em locais lindos e inalcançáveis de outra forma, bem como conhecer imensos recantos do país.

Desde cedo se podia prever que o menino que andava a brincar no rio Lis, que frequentou a Escola Primária da Reixida e que depois andou a saltar do Liceu para a Comercial, entre pequenos empregos de verão e a participação na Banda Filarmónica das Cortes (onde lhe deram a alcunha de “sete”), fosse parar a um curso mestre de cantaria na Batalha e se apaixonasse pelo trabalho artístico.

Sempre gostou de artes, brincava muito com pedaços de barro e até fazia misturas numa cassete com os programas e músicas que passavam na rádio. Os melhores amigos, que ainda hoje guarda, são desses tempos, em que «a malta juntava-se toda para fazer a limpeza do rio», jogava «à lata, ao pião e à malha» e em que «havia sempre desavenças no final dos jogos que se faziam no campo de Famalicão». Na altura em que as Fontes também tinha um campo.

Estudou produção artística em pedra, depois fez um ano de curso de Arte Sacra, em Coimbra, e outro curso de um ano de Madeiras e Mobiliário, em que estudou réplicas antigas, estofamentos, tintas, entre outras coisas que agora usa no trabalho do dia-a-dia. Para além da teoria da escola, «teve muita sorte» ao ter professores sábios da arte, como o Mestre Alfredo, que lhe deu aulas nos seus últimos anos de vida e lhe transmitiu muita coisa importante. Aprendeu a mexer em vários materiais como madeira, pedra e ferro, mas sentia que lhe faltava mais parte teórica e então inscreveu-se na Universidade de Tomar, onde se licenciou em Conservação em

Restauro, onde ficou com a teoria toda, estudou várias áreas e aprendeu a ética. Até hoje guarda com carinho a lembrança do primeiro grande trabalho na área que fez, tendo sido o seu preferido: o arco em talha da Igreja de São João, em Tavira, que reconstruiu apenas com base numa fotografia em que pouco se via do trabalho antigo. Gosta de desafios, e esse foi sem dúvida um dos melhores que já recebeu, afirma com um largo sorriso.

Foi então que percorreu o país a fazer trabalhos esporádicos para empresas que o contratavam. «No restauro, em Portugal, ou se tem uma oficina ou se trabalha para dez empresas a nível nacional», explica. Um trabalho precário, mas com vantagens, que apenas lhe permitia vir a casa ao fim-de-semana. Ter estudado várias áreas e saber um pouco de tudo deu-lhe a possibilidade de conseguir fazer um trabalho do início ao fim sem precisar de recorrer a outros serviços. Uma característica que lhe abriu muitas portas e que, para além de o deixar seguro de que estaria responsável por trabalho que estava a fazer, deixava os representantes das empresas mais descansados também.

Problemas familiares fizeram-no pensar um pouco mais no futuro e na necessidade de assentar. Voltou para casa para estar mais perto da família e acompanhar a mãe que estava numa fase difícil. «Voltei porque esta era a minha terra e também não fazia sentido continuar a fazer sempre o mesmo», lembra.

Montou a própria oficina, «Atelier História», já com uma bagagem cheia de conhecimento, e é lá que tem trabalhado desde então. «É um bocado trabalhar à antiga, cada cliente é um cliente, cada peça é uma peça e há sempre coisas novas, histórias novas». Para além do restauro de peças mais pequenas que faz na oficina, também faz restauros maiores nos lugares em que estejam as peças e até reabilitação de edifícios. Arte sacra, mobiliário, reinterpretação de móveis, trabalhos em fibra de vidro, enfim, são tantas as variedades de trabalhos que lhe vão aparecendo.

Infelizmente a vida já lhe pregou algumas partidas e deixou-o sem as duas pessoas mais importantes que tinha, os pais, mas tem-se mantido forte e determinado em fazer algo melhor para o mundo e em construir também ele uma vida. É como ter levado «duas chapadas», que lhe deram mais «força de espírito».

Vive com a noiva, Vânia Cordeiro, com quem começou a namorar ainda nos tempos de escola, e com quem tem uma menina de dois anos, a Margarida. A paternidade tem sido uma nova aventura, «experiência brutal», em que «cada fase é bonita».

Aproveita o que sabe para poder perpetuar mais um pouco este ofício e gosta imenso de fazer apresentações nas escolas. Ver as crianças «estupefactas» ao ver um antes e um depois de algum material. Fazer os mais novos entender que as coisas não aparecem já com formas e prontas a usar é uma das coisas que lhe dá mais gosto. Também por isso tem já em mente um projecto de oficina aberta em que irá transformar o atelier num local de demonstração, onde, para além de trabalhar, possa receber visitas de grupos. No futuro gostava ainda de dar formação, mas será um sonho que terá de guardar para quando tiver mais tempo livre. Sim, que a agenda já está repleta até meados do ano que vem, não fosse Bruno um jovem cheio de vontade de trabalhar e ideias que quer colocar em prática.

Além da oficina que montou em casa, que já lhe dá imenso trabalho, está a criar uma loja online de restauro de cadeiras, que consiste na recuperação de cadeiras mas todas de formas diferentes, não havendo duas iguais.

Tem também um estúdio em casa onde faz gravação de músicas, para bandas por exemplo, mas também produção de música eletrónica e música ambiente. Por escrever sobre isso, o Bruno também já andou nas noites a fazer concertos e a passar música com um amigo. Uma outra paixão, que está em stand-by por agora.

Quase como hobbie faz decoração de eventos temáticos em casas nocturas bem conhecidas, por exemplo em discotecas como a Império Romano, a Stress Less, o Suite ou a Mina. 

Ou seja, faz um pouco de tudo, não fosse ter sido sempre curioso, ter aprendido, procurado saber ou até mesmo perguntado sobre coisas novas.

Além disso, gosta de pintar telas, de viajar e de cozinhar. Adora música, estar com a filha e falar com os amigos.

Defende que «nada se consegue construir num dia» mas acredita que isso não implica ter uma vida monótona. E é exemplo disso. Está a construir um futuro, uma família, um atelier próprio, mas continua a ter imensos projectos e sonhos que não descarta.

Ah. E gosta de usar uma árvore como metáfora da vida: a fase inicial de plantação, o crescimento, a ramificação, o verdejar, a beleza, o direcionamento dos ramos…


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