Jun2018 Joao

 

Está a dar que falar no panomara do futebol nacional. Avançado, tem sido certeiro contra a baliza dos adversários.

O percurso não tem sido fácil, mas nunca desistiu.

 

Os primeiros toques na bola foram dados na apertada curva da subida dos Lourais. Fintou o perigo dos carros, rematou contra as caleiras da casa dos pais e superou-se no domínio da bola num campo improvisado de alcatrão, inclinado e sem quatro linhas. Nessa altura, garante, “já dava cabo da cabeça da mãe” por causa do futebol. Tinha cinco anos quando a mãe o inscreveu no União de Leiria. 

Não trocava a bola por nada mas, no entanto, João André Ribeiro Vieira nunca teve o sonho de fazer disso vida. “Sinceramente nunca pensei nisso. Os miúdos têm sempre esse sonho mas eu sempre pensei em tirar uma licenciatura”.

O tempo foi sábio e suficiente para perceber o quanto gostava de estar em campo. “No início diziam que era alto mas não era bom jogador, havia sempre melhores que eu. Mas trabalhei e sonhei. Algumas pessoas começaram a dizer que eu tinha muito jeito e a incentivar-me para continuar… Cheguei a sénior e assinei o meu primeiro contrato profissional”, adianta.

Dá sempre o melhor que consegue para se superar e desmistifica a ideia perfeita que existe dos jogares: “As pessoas pensam que o jogar da bola nasce com isto, com um dom, e não precisa de fazer mais nada. Mas não, tem que se trabalhar muito e nunca se pode desistir!”.

Desde então já passaram alguns anos e João passou por vários clubes: Atlético Reguengos, Marítimo, Torreense, Chaves, Moreirense, Feirense e Vizela. “É complicado andar a mudar de equipas e estar longe da família… é desgastante”, acrescenta.

O percurso não tem sido fácil e prova disso foram as três lesões graves que sofreu: partiu o tornozelo aos 17 anos, depois teve uma rotura de ligamentos e ainda uma distensão muscular. “Disseram-me muitas vezes que devia de desistir.

Não me diziam diretamente, mas rodeavam os meus amigos e familiares e diziam-lhes: com estas lesões todas o João está acabado, nunca mais joga”. Palavras duras para quem se esforça três vezes mais em período de recuperação. “Se alguma vez pensei em desistir? Muitas vezes! A recuperação exige muito sacrifício, é desgastante tanto fisicamente como psicologicamente. Quando são lesões que não são visíveis é menos doloroso. Agora quando olhas para o joelho e vês que está todo desfeito… é muito difícil”. A garra de campeão, a força da família e o apoio incondicional da namorada foram decisivos: “renasci”.

É quase uma década depois de ter saído da equipa que anda com o castelo ao peito, que João Vieira regressa a casa, àqueles que o viram crescer, à “equipa do coração”.

Avançado, com o número 17, marcou 22 golos nesta época em que o União de Leiria voou alto e quase alcançou o sonho de voltar à segunda divisão.

No último jogo, no confronto decisivo com o Mafra, levou ao rubro as quase 15 000 pessoas que foram ao Estádio Dr. Magalhães Pessoa. Fez o único golo da equipa nesse jogo mas, ainda assim, não foi suficiente para a subida de divisão. No final, com o empate por uma bola, os jogadores deitaram-se no chão, choraram e dirigiram-se aos adeptos antes de voltarem ao balneário. “Tivemos jogos em que se tivéssemos 100 ou 150 adeptos já era estar a ser simpático no número.

Ver Leiria no Estádio foi lindo. O barulho e a força que transmitem fazem-nos sempre querer jogar mais. O nosso grande objetivo era levar o UDLeiria à segunda divisão. No final, o sentimento foi de injustiça. O culminar de uma época boa, em que até estivemos 13 jogos consecutivos a ganhar, foi de deitar no chão, chorar e pedir desculpa. Ninguém naquele estádio queria fazer o Leiria subir mais que nós. Para o ano, se Deus quiser, podemos estar aqui a falar numa subida de divisão, porque é onde Leiria já esteve, onde Leiria merece estar e onde Leiria devia de estar”.

O futuro próximo é incerto mas já tem metas definidas para daqui a uns anos. “No futuro gostava de ser recordado como um jogador que era bom jogador e boa pessoa para os colegas. Quando parar de jogar quero abrir o meu próprio negócio, formar-me nesse ramo e ter uma vertente no desporto, talvez como treinador”. Os primeiros passos para esse caminho estão dados e já completou o primeiro de quatro níveis de treinador, na Associação de Leiria.

 

Para os mais novos pequenos sonhadores e amantes do futebol, deixa um conselho:

“Estudem! Corram bastante. Lutem muito como se não houvesse amanhã, mas não desistam dos estudos. 

Se tiverem que ser bons jogadores de futebol, vão ser.

Nunca se esqueçam que têm que lutar por tudo na vida.

Muita gente luta pelo futebol, eu felizmente consegui…

 

O jogador que tem sido destacado em várias publicações, tanto regionais como desportivas nacionais, é um jovem com raízes e histórias cortesenses. Nascido a 19 de Dezembro de 1991, é natural dos Lourais e filho de Helena Ribeiro, das Cortes, e de António Vieira, de Famalicão. 

Com uma infância maioritariamente passada no centro das Cortes, com os avós, é entre gargalhadas que confessa que só tomou banho no rio Lis uma vez. “Eu sempre achei que aquela água era muito fria e por isso ficava sempre só na ponte a ver os meus colegas ou então ia para ringue à frente do clube jogar futebol”, admite.

Andou na escola primária das Cortes do primeiro ao terceiro ano, na altura em que “só fazia disparates na descida do lagar de azeite”. Gostava de ir ao Centro beber café com o pai ao domingo, ritual que ainda hoje pratica antes dos jogos.

Depois foi para Leiria, onde tirou o quarto ano na Escola Amarela, fez o ensino básico na José Saraiva e concluiu o secundário no Liceu. Entrou no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, em Engenharia e Gestão Industrial, mas acabou por sair por ser impossível conciliar os estudos com a profissão.

Quando não está a jogar futebol gosta de ver televisão, andar de bicicleta e cozinhar. A viagem mais marcante que fez até hoje foi a Menorca, Espanha, “local paradisíaco” onde pediu a namorada, a Mariana, em casamento.


Capa_julho.jpg

Agenda de eventos

Assine o Jornal das Cortes AQUI!

Por apenas 15€ por mês (nacional) ou 25€ (estrangeiro)

geometriadomovelweb.jpg