O nosso Lis esteve despido durante mais de meio ano. A Nora que há mais de vinte e dois anos girava junto à ponte das Cortes, desde 1993, estava em avançado estado de degradação e, a meados de Setembro, foi retirada para dar lugar a uma nova. O tempo arrastou-se, não por dificuldade em construir uma nova, “porque isso é fácil, basta alguns dias”, mas porque foram “surgindo imprevistos e houve muita dificuldade em arranjar a madeira certa”. Quem o conta é José Lopes, mentor e executor da nora que já gira e brilha novamente nas Cortes.

“Fazer a nora é fácil, basta fazer uma coisa redonda e pô-la a girar”, conta a sorrir, simplificando o árduo trabalho e dedicação que tem tido para que o ex-libris da freguesia se mantenha bonito e a funcionar. “O difícil é encontrar o pinheiro certo, tem que ser verde, curvado, grande e não pode ser muito largo”, acrescenta.
A nova nora, instalada no início de Maio, é semelhante às anteriores, com seis peças e alcatruzes, mas tem a estrutura em ferro para “ver se consegue durar mais tempo”. A função dela continua a ser a mesma: encher os alcatruzes de água, levá-la para o tabuleiro superior que por sua vez a distribui entre uma via que cai em cascata sobre o rio e um tubo que enche o chafariz (1926). “Ela está ali para trabalhar, foi feita para isso mesmo, ainda me lembro dos animais que todos os dias bebiam água naquele chafariz", acrescentando que "além disso toda a gente gosta de a ver, não é por acaso que durante os meses em que não esteve lá todos os dias me falavam nela”.
A Junta de Freguesia, à semelhança das situações anteriores, contribuiu com todo o material e apoio que foi necessário, e desta vez aproveitou também para restaurar o espaço envolvente.
Esta já é a quarta nora em que José Lopes trabalha, sempre com a ajuda de alguns amigos na montagem, mas a emoção com que fala do resultado deste trabalho continua a ser bem visível no rosto deste conterrâneo, antigo carpinteiro e grande colecionador, já com 74 anos. “É uma vitória! Já são muitos anos a trabalhar nas noras, não o faço a troco de nada, gosto de a fazer, gosto de ver aquilo a trabalhar, é só isso”. Acrescenta que provavelmente esta será a última que faz, admitindo que foi “passando o testemunho de como se faz aos filhos e netos”, e deixando o desejo de que os cortesenses nunca deixem de tratar e manter este símbolo da freguesia.

 

Inauguração da Nora e
homenagem a José Lopes

Até então a nora era tirada e substituída por uma nova. Mas desta vez não foi assim tão simples e a Belidade mexeu os cordelinhos para marcar o feito. Estava tudo pensado a rigor para uma inauguração divertida e diferente: a nora a girar no lugar dela, um Afonso Lopes Vieira a escrever à secretária e ainda canções e poemas alusivos à freguesia, ao Lis e à Nora. Foi durante a tarde de sábado, dia 21 de Maio, e contou coma presença de muitos conterrâneos.
A ideia foi do grupo Belidade que, ao acompanhar a desmontagem da antiga nora e o trabalho da construção da nova nora, achou que coloca-la simplesmente a rodar no lugar dela não era suficiente. “Este homem, o Zé Lopes, como lhe chamamos, deu horas e horas a isto, teve tanto trabalho, e nós tínhamos saudades da ver ali a nora”, adianta Carmo Cordeiro, representante do grupo. “Mais do que uma merecida inauguração, nós queríamos homenagear e agradecer ao nosso amigo”, acrescenta. Falaram com o executivo da Junta da União de Freguesias de Leiria, Pousos, Barreira e Cortes que imediatamente concordou com a iniciativa, se disponibilizou para oferecer o lanche e tratou de fazer uma Medalha de Honra para oferecer a José Lopes como “agradecimento, reconhecimento e estima pelo empenho que sempre teve em renovar o ex-libris das Cortes”.
Uma tarde de grande emoção para o mentor da nora que adorou e agradeceu a iniciativa pela “espontaneidade com que tudo foi feito, pelas brincadeiras com as encenações, a guitarra e os versos”.
Da nossa parte fica também um agradecimento, em nome da equipa deste mensário regional e, certamente, de toda a freguesia, por toda a dedicação e amor com que faz, cuida e fala da nora de todos nós. P.C.G.

 

A história das Noras das Cortes,
contada por quem esteve envolvido
na construção das últimas quatro

Nos tempos idos dos séculos, o Homem sempre teve a imaginação do menor esforço e maior rentabilidade. Não sei desde quando existem as noras implantadas à borda do rio com a missão de tirar água para nível superior das terras e fazer a irrigação das plantas.
As noras do rio Liz, do conhecimento que tenho, existiam, da nascente até Leiria, 14:
1 – Fontes (margem esquerda)
1 – Paul – Joaquim Almeida (margem esquerda)
1 – Quinta da Jordoa (margem esquerda)
1 – Moinho do Rouco (margem esquerda)
1 – Cortes – para ao Alambique, da família Afonso Lopes Vieira (margem esquerda)
1 – Cortes – para destilaria hoje casa da família Luís Pinto e chafariz para os animais beberem (reposta) (margem esquerda)
1 – Abastecimento ao moinho e lagar de azeite, hoje Casa da Nora (margem esquerda)
1 – Para regar um terreno à caneira (nora do Dr. José) (margem direita)
1 – Pomar do rio do Sr. Júlio Rodrigues – ainda há vestígios (margem esquerda)
1 – Do Sr. Francisco Lopes e Carvalheiros, no pomar do rio (margem esquerda)
1 – Ponte Cavaleiro (margem esquerda)
1 – Quinta de São Venâncio (margem esquerda)
1 – Ponte de São Romão (margem esquerda)
1 – Moinho de papel (margem esquerda).
… Não contando os engenhos tocados por um animal à roda do poço e as azenhas dos moinhos para fazer farinha dos cereais.
Depois vieram os motores elétricos e de explosão a petróleo e foram-se esquecendo as noras.
Hoje, a maior parte dos terrenos estão por conta de matos & silvas, a criar amoras e as margens do rio é o que se vê.
Destas noras todas que falo, muitos carpinteiros estiveram envolvidos ao longo dos anos de arranjo e manutenção (e menciono apenas pessoas que conheci). Por isso quero aqui prestar a minha homenagem a Joaquim António Lopes (meu pai), Joaquim Lúcio, José dos Santos, Luís Carpanto, António Lopes, Francisco Lopes, Júlio Rodrigues (pai e filho), António de Sousa Antunes e José da Quinta.
Esta nora que foi agora reposta a girar tem uma história que passo a contar.
Com a paragem dos alambiques e do lagar de azeite e com o alargamento da ponte, as duas noras à ponte do rio estiveram muitos anos paradas e desapareceram.
Numa reunião da Assembleia de Freguesia a 27/XI/1982 da qual o Sr. João P. Moniz era presidente, o Sr. António Bernardo Ferrão presidente da Junta e eu membro da Assembleia, falámos em refazer uma nora para o lugar da antiga com o objetivo de elevar água para o chafariz. Daí até a fazer foi um ápice: eu e o Sr. Júlio Rodrigues fomos cortar pinheiros ao pé do campo Joaquim Luciano, serrámos a madeira na Gondrela em Famalicão e foi manufaturada dentro da casa que hoje é a Electrocortes (andava em construção). Essa nora durou cinco anos.
Entretanto, já no mandato do Sr. Alberto Achando, fez-se outra que também durou 5 anos.
Em 1993, já no mandato do Sr. António Carvalho, pensámos em fazer uma nova nora com a estrutura interior em ferro e só a parte exterior, os alcatruzes e as penas em madeira. A parte metálica foi feita na firma M.O.M., os meus amigos António Frazão e Manuel Alves executaram-na na perfeição, como se fosse de madeira (como as anteriores).
Esta nora, da qual há registo filmado da sua montagem, começou a girar em 09/IV/1993 e durou até 14/X/2015, mais ou menos 23 anos, uma diferença significativa em relação às anteriores.
Todas as noras, mencionadas anteriormente, sofreram reparações ao longo destes 34 anos, sempre com o apoio de todos os Presidentes de Junta de Freguesia.
A reposição desta nora, apesar de não ter cumprido o tempo que fora prometido aquando do desmantelamento (que era até ao Natal), está feita.
Quero agradecer ao Sr. José Cunha e ao Sr. Luís Gaspar pelo apoio dado, à REPSOL, na Cova das Faias que deu o pinheiro, à serração SARAIVAS de S. Jorge na pessoa do Sr. Pe. Cristiano Saraiva, à serralharia Ferrolis e ao grupo da Belidade pelo interesse manifestado. O meu muito obrigado.
José António Lopes


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